sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Currículo



Nasci humano,
Ninguém tem culpa,
Pois o culpado,
Sempre sou eu.

Pra começar
Eu sou honesto
E Brasileiro,
Logo não presto.

Qual cão sarnento,
Pra ser imundo,
Eu escolhi
Terceiro mundo.

Pra viver sempre,
Preocupado,
Bem muito cedo,
Me fiz casado.

Pra sofrer muito
E passar fome,
Me agradou
Ser professor!

Para ser sempre
Um inconstante,
Eu resolvi
Viver bastante.

Para sofrer
Sempre e sempre,
Também nasci
Inteligente.

Eu não nasci
Pra milionário,
Pois minha sina
É de operário.

Como esportista
Sou malfeitor,
Pois optei
Por Caçador.

Só acredito
No que é bonito,
Acho o feio
Muito esquisito.

Tenho no peito
(pra minha ruína)
Uma centelha,
Que é divina!

E sofram muito,
Imigos meus,
Olho no espelho
Tal qual narciso,
Só vejo um deus.

Eu como Géber,
Fui sofredor;
Como Accioly,
Fui militar,
Como Romano,
Que agora sou;
 É só viver,
Amar, sonhar...

Na Rede


1
Amigo, sei que sou único
Durmo tarde e acordo cedo
Pra passar o maior tempo
Fazendo o nada fazer
Mas eu digo pra você
Pois sou um cabra da peste:
Fico só fazendo rima
Na Rede, com o pé pra cima
Sob o Luar do Agreste
2
Sei que sou quase exclusivo
A começar pelo nome
De Géber, você me chame
Porém veja se não erra
Pois o "G" é como em "Guerra"
Bem comum pelo Nordeste
Que o certo não desafina
Na Rede, com o pé pra cima
Sob o Luar do Agreste
3
De família tem Romano
E tem também Accioly
São nomes que vêm de longe
Da outra banda do mar
Mas uma coisa eu bem sei
Vindo do Norte ou do Leste
Orgulho não me vitima
Na Rede, com o pé pra cima
Sob o Luar do Agreste
4
Já trabalhei feito um burro
Casei e criei família
Passei aperto e venci
Sem a ninguém magoar
Pra nunca me lastimar
Nem servir de cafajeste
Vivo vida bem vivida
Na Rede, com o pé pra cima
Sob o Luar do Agreste
5
Hoje a preguiça anda solta
Ninguém quer mais trabalhar
O governo dá de um tudo
Pra se vagabundear
Só vale a Bolsa Família
Dando comida e veste
Só se fala em propina
Na Rede, com o pé pra cima
Sob o Luar do Agreste
6
O casamento acabou
Hoje só querem "ficar"
Trocou-se idade por peso
Menina quer namorar
Pois logo aos trinta quilos
Pouca coisa faz que preste
Mulher, mocinha e menina
Na Rede, com o pé pra cima
Sob o Luar do Agreste
7
Gosto é de Natureza
Pois nela eu me deleito
Só trago a paz no peito
Pois a mim mesmo agrado
O que faço de bom grado
É viver pelo Nordeste
Todo mundo me estima
Na Rede, com o pé pra cima
Sob o Luar do Agreste
8
Não dispenso uma Caçada
E nem uma Pescaria
Caço e pesco o que está livre
Dentro da Ética e da Lei
Pois uma coisa eu bem sei
Não quero que me moleste
A Lei humana ou divina
Na Rede, com o pé pra cima
Sob o Luar do Agreste
9
Minha vida é Obra-Prima
Sei fazer o Não - Fazer
Faço e desfaço bem feito
Refaço de outro jeito
Deixando tudo direito
Para que nada mais reste
Sem que nada me reprima
Na Rede, com o pé pra cima
Sob o Luar do Agreste
10
Quando vejo alguém sofrendo
Sei que fez por merecer
E eu digo pra você
Que Deus é justo e perfeito
Pois só castiga o sujeito
Que na maldade investe
Bondade me reanima
Na Rede, com o pé pra cima
Sob o Luar do Nordeste
11
Se me apresentam um problema
Abacaxi ou pepino
Pego, corto, ajeito, afino
Rebato, coloco um pino
Ligeiro sem mais demora
Desatando o nó que deste
Pois nada me desanima
Na Rede, com o pé pra cima
Sob o Luar do Agreste
12
Para a saúde ser boa
Trato da minha pessoa
Com o que é sadio e bom
Só uso o que me faz bem
Me agrada e me convém
Sem viver fazendo teste
Evito quem se lastima
Na Rede, com o pé pra cima
Sob o Luar do Agreste
13
Quando o idoso se casa
Já pega um "Kit" pronto
A esposa traz na bagagem
Uma família completa
Recomeçam os cuidados
E no futuro investe
Mas a tudo ele sublima
Na Rede, com o pé pra cima
Sob o Luar do Agreste
14
Amigo pra ser do bom
É cordato e verdadeiro
E sabe do mundo inteiro
Mas sem qualquer pretensão
Amigo pra toda hora
Que a bondade ateste
E pela amizade prima
Na Rede, com o pé pra cima
Sob o Luar do Agreste
15
Quando a mulher reclama
Pois nasceu pra reclamar
Deixa o tempo passar
Logo ela cansa e desiste
Vá pra Rede e se aquiete
Pois a paciência o reveste
Quem é bom não desanima
Na Rede, com o pé pra cima
Sob o Luar do Agreste
16
Tem o Céu e tem a Rede
Na Rede fico no Céu
Se no Céu não tiver Rede
Ficarei a ver Tetéu
Deitado aqui numa Rede
Sem ir pra mansão celeste
Sem Rede o Céu não me anima
Na Rede, com o pé pra cima
Sob o Luar do Agreste
17
A Rede é lugar pra tudo
Dá até pra um chamego
(Só não dá pra ser em pé)
Use e abuse da Rede
Aproveite enquanto é tempo
E a idade se manifeste
Chupando laranja ou lima
Na Rede, com o pé pra cima
Sob o Luar do Agreste
18
A Rede é um lugar santo
Pra acabar com cansaço
Na sombra dum Umbuzeiro
No Inverno ou no Verão
Na Rede tudo é possível
Nem tem coisa que eu deteste
Nem que a vida se exima
Na Rede, com o pé pra cima
Sob o Luar do Agreste
19
Quando for pensar em algo
Que lhe cause desconforto
Faça da Rede seu porto
E atraque pra descansar
Se reclamarem não ligue
Não discuta nem conteste
Ou deixe que lhe deprima
Na Rede, com o pé pra cima
Sob o Luar do Agreste
20
Quem cuidou da mocidade
Ficou maduro de tempo
A velhice vira prêmio
Pra viver o bom viver
Transforma-se o dia-a-dia
Numa vitória inconteste
Sem que nada o oprima
Na Rede, com o pé pra cima
Sob o Luar do Agreste
21
Velhice, Rede e Luar
Saúde, Tempo e Dinheiro
Mulher nova e carinhosa
E amigo verdadeiro
Vida boa e liberdade
Sem nada que me encabreste
Pois a vida só me mima
Na Rede, com o pé pra cima
Sob o Luar do Agreste
22
Por Deus tenho a Natureza
Por estandarte o Bem
Para mimar tenho o Amor
Pra toda a vida a Amizade
Para punir tenho o desprezo
Se não quiser não me teste
Do bordão eu vou à prima
Na Rede, com o pé pra cima
Sob o Luar do Agreste
23
Se até vinte não se barba
Se até trinta não se casa
Se aos quarenta não se tem
Melhor é se conformar
E aceitar seu destino
Se for do contra endoidece
Melhor é abrandar a sina
Na Rede, com o pé pra cima
Sob o Luar do Agreste
24
Não adianta tentar
Mudar qualquer natureza
Pois ninguém muda ninguém
Se nasce bem ou mal feito
Se aceita ou não se aceita
E quem quiser testar que teste
Mas eu fico em surdina
Na Rede, com o pé pra cima
Sob o Luar do Agreste
25
Revendo a vida vivida
Honradamente assuntando
Ouvindo a Natureza
Meditando ou descansando
Ante a presença do Eterno
Numa uma paisagem celeste
Onde sempre ajuda o clima
Na Rede, com o pé pra cima
Sob o Luar do Agreste

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Aprendendo

Escrevi este cordel em 2005 quando comecei a frequentar a casa do Edi Monteiro, no Pau Ferro, Jacarepaguá, Rio de Janeiro- RJ, e ele começou a me dar as dicas para conviver com "cariocas" .Não os verdadeiros Cariocas, pois estes realmente sabem viver e deixam os outros viver. Ele é uma singela e sincera homenagem a um verdadeiro Carioca do qual e me considero "amigo para o que der e vier".

APRENDENDO
(A Edir Monteiro)

1
"Chapéu de otário é marreta"
Diz o dito popular
Eu pensei que era esperto
Mas veja como é que é
Percebi a duras penas
Ligando minha "antena"
Que "enquanto houver cavalo
São Jorge não anda a pé"
2
Vim do Nordeste pro Rio
Acompanhando família
Para mudar minha vida
Um recomeço qualquer
Mas só estou levando pau
'Stou mole feito mingau
Pois"enquanto houver cavalo
São Jorge não anda a pé"
3
Quando peço informação
Me dão endereço errado
Ando noutra direção
Fico que nem "Mané"
Se pergunto viram o rosto
Só me encho de desgosto
Mas "enquanto houver cavalo
São Jorge não anda a pé"
4
Me mandam comprar sapato
Em mercado de verdura
Me chamam de velho burro
E quase que "perco o pé"
Não respeitam minha idade
E vejo a grande verdade:
Pois "enquanto houver cavalo
São Jorge não anda a pé"
5
Muitos se fazem de amigos
Só pra levar na anarquia
Velho não tem serventia
Sou tratado qual ralé
Se reclamo me ameaçam
Humilham e me embaraçam
Mas "enquanto houver cavalo
São Jorge não anda a pé"
6
Me sinto todo perdido
Sendo desconsiderado
Fico pra frente e pra trás
No vai e vem da maré
Acho tudo esquisito
E só vivo muito aflito
Mas "enquanto houver cavalo
São Jorge não anda a pé"
7
Tenho pressa em voltar
Aqui não é meu lugar
E se aos céus for servido
Não levo mais pontapé
Sei que estou pagando sina
Mas sei que a dor ensina
Que "enquanto houver cavalo
São Jorge não anda a pé"
8
Quando cheguei peguei Dengue
A polícia bota medo
Bandido é quem dá emprego
Não arrumo nem mulher
No "Movimento de Amor"
Encontrei muita vaidade
Mas "enquanto houver cavalo
São Jorge não anda a pé"
9
Espero dias melhores
Mas eles pra mim não vêm
Aqui só vale quem tem
Um Santo de Candomblé
Quem paga a Edir ou Soares
Pra diminuir pesares
Pois "enquanto houver cavalo
São Jorge não anda a pé"
10
Só que o cavalo sou eu
Vivendo ao emboléu
Padeço qual Prometeu
Sem saber como é que é
Mas agradeço ao Edi
Monteiro, pelo começo
Pois "enquanto houver cavalo
São Jorge não anda a pé"
12
Estes versos escrevi
Estando novo no Rio
Aceitando o desafio
Para ver como é que é
No conceito dos daqui
Sei que logo vou crescer
Pois "enquanto houver cavalo
São Jorge não anda a pé"
13
Reconheço minhas falhas
Hoje , aqui e agora
O lugar é pra "esperto"
Mas velho é desprezado
Morre logo de desgosto
Aprendendo uma verdade:
Nordestino é pra Nordeste
Onde ele é bem tratado.

Gemedeira

Justificativa gemida
I
"Eu vou contar a história
(que pode ser verdadeira)
de um menino enjeitado
que lutou a vida inteira
para ser um agregado
mas sempre foi rejeitado.
ai,ai
só em sétima gemedeira."

Começava assim uma história que há muito tempo ouvi de um velho cantador/contador, que andava de cidade em cidade cantando/contando suas histórias, e elas eram tão bonitas que quem as ouvia sempre dava para ele como pagamento, o que ele precisava para viver.
Vestimenta, comida, calçado tudo lhe era dado. Somente não aceitava dinheiro em espécie, pois dizia que depois de terem inventado o dinheiro os homens começaram a se odiar.
Vou tentar cantar/recontar o que o velho cantava/contava, pois para muitos que a ouviam era verdadeira e que o velho era uma alma penada condenada até os fins dos tempos a andar vagando pelo mundo cantando/contando sua vida; outros diziam que era pura invenção e que o velho cantava/contava para mostrar como sofre uma pessoa que foi enjeitada quando criança.Eis aí a seqüência da história contada pelo rejeitado/agregado ao velho cantador/contador.
Quando o velho cantador/contador de historias recitava aquela primeira estrofe, ficava com os olhos marejando e parecia estar sentindo uma grande saudade.
Uns diziam que o velho era um excelente ator e que realmente conhecera o rejeitado/agregado, outros diziam que ele estava relembrando sua infância.

II
"Tinha feito quatro anos
quando o seu pai morreu
o que guarda na lembrança
é um beijo que recebeu
e isso ficou marcado
no rejeitado agregado
ai,ai
e nunca mais esqueceu!"

Nestes versos ele explicava que o agregado lhe disse que seu pai era um homem bonito, alto, atlético e que esta imagem ele guardava pois foi no dia que seu pai se encantou no mar, e o velho dizia que uns diziam que seu pai havia feito aquilo por vontade própria e por desgosto, pois descobrira um terrível segredo; já outros diziam que foi apenas uma fatalidade, entretanto os ouvintes mais observadores percebiam que somente o velho sabia da verdade verdadeira que o agregado sabia, porque ele explicava que aquele beijo havia sido realmente especial e que havia sido de despedida.
III
"Da sua terra natal
só guarda pouca lembrança
ficou tudo anuviado
pois era muito criança
mas ainda tem a vontade
de rever sua cidade
ai,ai
não perde a esperança."

O agregado falava de três imensas toras de madeira transportadas por uma imensa carreta, e falava também de uma fachada de uma casa branca, no sopé de uma colina, de uma escada sinuosa, um Flamboiã com flores vermelhas e o resto era tudo brumas.

IIII
"Ficou sua mãe viúva
com seis filho pra criar
mas o que o seu pai deixou
dava e ainda ia sobrar
mas a mãe se aperriou
um namorado arrumou
ai,ai
e resolveu se casar."

O agregado achava que sua mãe por ser ainda muito moça deveria se casar, entretanto não do jeito que foi descobrindo no decorrer de sua vida, pois da verdade verdadeira realmente nunca foi informado por ninguém.

V
"Só que esse novo marido
era um homem diferente
não gostava de criança,
bebia muita aguardente,
mas sua mãe aceitou
só com dois filhos ficou
ai,ai
os quatro deu de "presente"."

Nessa parte da história o velho cantador/contador de história explicava que o agregado depois de já homem feito achava que, fosse qual fosse o motivo, sua mãe nunca deveria ter feito aquilo, pois separou os irmãos e isso não é coisa para mãe nenhuma fazer.
– Mãe que é mãe morre na tuia, mas não abandona os seus filhos", dizia.
Mas ele viria saber da verdade muito mais tarde

VI
"Como agregado ficou
com um tio separado
que o tomou como filho
pra não ser um rejeitado
e a partir dessa data
perdendo a mãe, coitada
ai,ai
sofreu muito o coitado!"

Nesta parte da história todo mundo notava que ele sentia muita pena do agregado, pois o agregado sempre dizia que havia ficado com uns boizinhos de barro que seu tio havia comprado para o seu irmão mais velho e mais tarde ele soube que quem ia ficar com o seu tio era o outro mais velho,
mas como ele não quis ficar... ficou o rejeitado.
O velho ficava com pena do agregado, pois sempre lembrava da história que seu avô contava de quando foi separado de seus irmão por ter sido vendido a um outro senhor de escravos.
O velho cantador/contador de história dizia sempre:
– Separaram os irmãos como se fossem bichos e não gente, credo!

VII
"Separado dos irmãos
pela mãe "abandonado"
o tio cuidava dele
era sempre bem tratado
até nove anos de idade
viveu em felicidade
ai,ai
mesmo sendo um rejeitado."

Dizia o velho que por um tempo o agregado se esqueceu que havia sido rejeitado por sua mãe e até foi se acostumando, e já pensava que o tio era o seu pai de verdade.

VIII
"Seu tio era muito bom
(era um pai verdadeiro)
era um homem sem vícios
trabalhador e ordeiro
tudo ao agregado dava
nada pra ele faltava
ai,ai
era amigo e companheiro.

VIIII
Tudo era felicidade
logo o agregado esqueceu
que havia sido rejeitado
logo que seu pai morreu.
A vida seguia em frente
vivia muito contente
ai,ai
tendo um lar que era só seu."

O velho cantador/contador de histórias explicava que o agregado mesmo sendo muito novo, ainda se lembrava de muita coisa daquele tempo feliz, pois o marcaram para sempre.

X
"Com o seu tio habitava
uma boa prima solteira
cuidando de sua casa
recatada e ordeira
tudo ali era alegria
e logo pra ele seria
ai,ai
a sua mãe verdadeira.

XI
Pois os dois cuidavam dele
como um filho adotivo
e o menino que era bom
vivia agradecido
saiam pra passear
para nadar e pescar
ai,ai
se sentindo bem querido."

Nessa parte o agregado explicava que aquele havia sido o tempo mais feliz de toda a sua vida.
Moravam em um segundo andar de um velho sobrado
e que seu tio saía para passear com ele todos os Domingos.
Muitas vezes iam até o porto da cidade, tomavam um barquinho,
atravessavam o rio e iam pescar e nadar. Tudo era realmente felicidade.
XII
"Quando chegou a idade
na escola ele entrou
pois foi alfabetizado
na casa do seu avô
(passou um tempo por lá)
antes do tio o aceitar
ai,ai
e arrumasse um novo lar."

O agregado estudava perto de sua casa, que ele ia para lá a pé, que sua primeira professora era muito afamada e muito meiga e, que a primeira namoradinha dele era descendente de árabe.
XIII
"Como o seu berço foi bom
teve boa instrução
pois sua infância havia
lhe dado um bom coração
que batia em seu peito
pois escola não dá jeito
ai,ai:
Quem é bom já nasce feito!"

Até ai, explicava o velho cantador/contador de histórias, tudo parecia ser para sempre. O agregado já estava realmente achando que aquele lar era realmente dele e que sempre seria feliz com seu tio e com a prima/mãe.
XIIII
"Mas o que é bom dura pouco
seu tio se converteu
para os "santos evangelhos"
e aquele bom pai morreu
pois descobriu com o pastor
que era um "pecador"
ai,ai
a porca o rabo torceu!"

Muito dos ouvintes ficavam com raiva porque também eram convertidos aos santos evangelhos e também se achavam pecadores e pediam para que o velho cantador/contador pulasse essa parte, mas o velho cantador/contador de historias explicava que não podia pular essa parte, pois era muito importante para a historia do agregado. O agregado contou para o velho que em nome de Jesus, quando ele era menino, sofreu mais tortura do que o próprio Jesus, mas que Jesus havia vindo para sofre por que assim o quis, entretanto... ele não.
XV
"Acabaram-se os passeios
e com eles as pescarias
seu tio ficou tristonho
acabou-se a alegria
no lar entrou a tristeza
o pecado e a malvadeza
ai,ai
e o sofrer fez moradia."

XVI
Por qualquer coisa apanhava
o lar virou uma rinha
(quase morreu no cacete
por causa de uma colherinha
que o tio o café mexia)
era cacete a granel
ai,ai
sempre à hora da tardinha.

Os passeios de final de semana se transformaram em idas para a igreja, orações, penitências, retiros e coisas para ele, muito novo, muito desagradável, entretanto com o passar dos tempos por não ter opção, ele foi se conformando e se acostumando.

XVII
Falou, o pastor, pra seu tio
que ele estava em pecado
longe da esposa e do filho
e estava condenado
tinha de pra eles voltar
e todos junto morar
ai,ai
para então ser perdoado.

O velho explicava que o agregado nunca entendeu que diabo de pecado era aquele que seu tio achava que praticava, ou que havia praticado, e que somente podia ser perdoado de voltasse para sua mulher e seu filho.
Toda vez que procurava entender sempre encontrava o tal segredo de família, até que um dia, já adulto é que um outro tio seu (o caçula) lhe contou toda a verdade. Somente aí e que o agregado entendeu o porquê do seu tio sofrer tanto e vingar-se nele, mas... já era muito tarde... muito tarde mesmo.

XVIII
Começaram as visitas
pra reatar a união
viagens e mais viagens
nova apresentação
e o rejeitado sobrando
ia se desagregando
ai,ai
começou a danação.

A mulher do seu tio morava no interior, juntamente com seu filho que por sinal era mais novo que ele um ano, e a amizade do rejeitado para com seu primo foi quase que instantânea, entretanto mais tarde, bem mais tarde, ele percebeu que a recíproca não era verdadeira, pois sempre foi encarado como usurpador, tanto pela mãe como pelo filho.
XVIIII
Finalmente o seu tio
sua família juntou
pra não ficar em pecado
(isso o pastor falou)
e o menino agregado
todo dia judiado
ai,ai
o seu coração trancou.

Pouco tempo namoro e todos estavam morando juntos: O tio, a tia, o primo e o agregado, entretanto muita coisa mudou para o agregado, pois começou a ser rejeitado pela tia. Mais tarde, bem mais tarde, ele veio a entender o porquê daquela insegurança e até foi considerado por ela (em seu leito de morte) como o seu quarto filho, mas... já era tarde... muito tarde.
XX
A mudança foi severa
violenta e radical
ao invés de ter cuidado
o carinho era pau
o tio que dava amor
virou um torturador
ai,ai
parecia um animal.


XXI
O agregado não entendia
aquela brusca mudança
do amor virar em ódio
pois guardava na lembrança
que os momentos felizes
tinham criado raízes
ai,ai
mas foi perdendo a esperança.

Quando chegava nessa parte da história o velho explicava que o agregado ficava relembrando os tempos felizes até aquele momento em companhia de seu tio, mas que não era uma coisa seqüenciada não.
Lembrava de uma coisa, outra, depois voltava no tempo e lembrava outra, e assim por diante.
Mesmo envolvidos pelas brumas do tempo, somente lembrava dos momentos felizes, pois as mágoas e recordações tristes ele as esquecera trancadas a sete chaves, lá no mais fundo de seu coração, e quando uma queria sair ele a empurrava de volta com dezenas de momentos prazerosos.
Relembrava das corridas a cavalo da planta de capim até a casa da cachaça, que fazia com seu primo no engenho do avô materno dele.
Relembrava da sua Aratanha, um caminhão de empurrar, feio e desengonçado,
(mas querido como o diabo) com direção e tudo.
Relembrava das decidas de ladeira (como carona) no carro de descer ladeira de seu primo, que somente parava quando batiam no monte de cachaça (bagaço de cana-de-açúcar com mel de furo) para o gado.
Relembrava dos banhos de rio e de açudes.
Relembrava de quando a Usina colocava vinhoto dentro do rio e o avô materno do seu primo,
abatia a tiro as Traíras embebedadas.
Relembrava de quando sem querer, matou uma Lavadeira, (se remorso matasse...), que estava pousada no mais alto galho de uma Cajazeira, com uma pedrada de estilingue, debalde esforços para ressuscitá-la com medo dos castigos de Deus.
Relembrava das caçadas de Lagartixa. (elas viravam Calango e não morriam,
pensavam os caçadores de pontaria infalível)
Relembrava das idas e vindas a engenhos vizinhos empurrando carros de descer ladeira. (viagens de sonhos que duravam tardes inteiras)
Relembrava de uma carreira que deu ladeira a baixo, tirando o macacão e as botas (sem pelo menos tombar, quanto mais cair), por pensar que um pedaço de cana-de-açúcar que lhe entrara roupa adentro, era uma cobrinha que tentara matar.
O que causava espanto a todos que ouviam o velho cantador/contador de história é que ele transmitia tanta emoção com sua narrativa, que muitos pensavam ser realmente a verdade e que o agregado fora ele.
Relembrava das caçadas nas matas do engenho do seu avô paterno acompanhado de seu primo.
Relembrava das pescarias, dos passeios de jangada, e tantos outros momentos de pura felicidade.
Relembrava com muito carinho do nascimento do outro primo
e depois de sua prima e os amava como a dois irmãos.
Relembrava que o priminho somente comia quando ele brincava de aviãozinho. (não comia com mais ninguém).

XXII
O agregado foi mudando
começou a sua cruz
com seu tio aprendeu
cedo a odiar Jesus
pois em nome desse deus
muita tortura sofreu
ai,ai
parecia um Prometeu.
XXIII
Mas como na sua infância
só havia felicidade
com seu coração de ouro
perdoava a maldade
e o rancor do seu tio
(que agora dava com fio)
ai,ai
fio de eletricidade!!

Estas estrofe despertavam muito a curiosidade dos ouvintes e o velho cantador/contador de histórias explicava que o agregado contava que este tipo de tortura era sempre acompanhada de uma justificativa bíblica e entre elas uma que ficou marcada em sua memória: "Não tirai a vara do lombo da criança", e serviu para que mais tarde ele nunca tocasse nem em um fio de cabelo das suas duas filhas.
Segundo o cantador/contador de histórias as lembranças deixavam o agregado meditativo, pois como ele afirmava, havia sido um tempo de provação, mas que serviu para reforçar o seu caráter.

XXIIII
Tudo o rejeitado agregado
fazia para agradar
procurava ser bonzinho
para evitar apanhar
pois se lembrava do fio
e do braço do seu tio
ai,ai
era um sofrer de amargar!
XXV
Tudo na vida fazia
para evitar o fio
até que ouvia a frase:
“Eu vou dizer pro seu tio”
e aí não tendo mais jeito
só fazia o que é mal feito
ai,ai:
De noite tome pavio.


XXVI
Seu tio tinha três filhos:
Dois meninos e uma menina
e mais uma empregada
que cuidava da faxina
o agregado os agradava
e até se humilhava
ai,ai
essa era sua sina!

Explicava o cantador/contador de histórias que o agregado contava que vivia pisando em ovos para não desagradar quem quer que fosse com medo de que fosse pronunciada a terrível frase: "Eu vou dizer pro seu tio", entretanto depois que ele a ouvia (sabendo que a surra era inevitável e inexorável) fazia tudo por onde merecê-la: não estudava, ia pra rua maloqueirar, brigava com o primo,
arengava com a empregada... e cositas más.
XXVII
Sua pele esticou
(pois por todos apanhava)
e se qualquer um errasse
seu couro é que agüentava
aquela trança de fio
e o carinho do seu tio
ai,ai
quando à noite chegava.

Explicava o velho que o agregado contava que era um sofrimento ter de pagar pelos erros dos outros (e ser por isso chantageado até pela empregada adolescente que também entrava no clima).
XXVIII
Para quem nunca sofreu
na vida uma tortura
se quiser desejar mal
para qualquer criatura
faça logo ele provar
(vinte coçadas levar)
ai,ai
e sinta a gostosura!
XXVIIII
Diz a ciência moderna
que entre o torturador
e a vítima torturada
há relação de amor
e que ela está fixada
entre o ódio e a dor
ai,ai
pois ambos são perdedores.

O cantador/contador após recitar estas estrofes punha-se a filosofar sobre o sofrimento humano
e o que ele pode fazer às pessoas.
Os pobres de espírito lastimam-se, e recorrem a terceiros que os livre daquele sofrimento,
ou pelos menos o amenize.
Os ricos de espírito buscam no fundo do seu coração forças que o fazem tirar de letra aquele momento de dor, e até anseiam por sua chegada (catarse?) para poderem testar sua tolerância.
Narra ainda, o velho cantador/contador de histórias que o agregado viveu em companhia do seu tio até os dezesseis anos, pois ele o agregado, estava no seu íntimo se rebelando e como já era quase homem feito...
XXX
“O menino é pai do homem”
disse o escritor Assis
e ele nunca se esqueceu
do tempo em que foi feliz
e o mal pelo bem trocou
sempre humilde suportou
ai,ai
pois tinha boa raiz.
XXXI
Era uma raiz profunda
bem plantada em muito amor
cultivada e bem cuidada
pela avó e pelo avô
que no céu estão morando
e pra ele estão olhando
ai,ai
lá de junto do Senhor!

Explicava o velho cantador/contador que o agregado dizia que a função dos avós e exatamente esta: Dar amor. Dar amor através do exemplo, pois a responsabilidade de criar e educar eles já tiveram quando eram pais. Avós é... deleite, é... curtição.
Avós que tem a responsabilidade de criar e educar netos os estraga para o resto da vida, pois até os sete anos os filhos devem ser criados pelos pais sem a interferência de mais ninguém, e principalmente se estes ninguens forem... avós.
XXXII
“Todo mal traz sempre o bem”
ele ouvia do avô
depois que ele se fez homem
e uma família formou
nunca soube judiar
pois só tem amor pra dar
ai,ai
nunca um seu filho apanhou.

Em suas abstrações filosóficas, o velho cantador/contador parece que também havia aprendido com o agregado que há um tempo para tudo.
Quanto mais ouvia a história que o agregado lhe contava, mais ele ia percebendo que tudo por que o agregado passara até os dezesseis anos, somente fizera com que ele pudesse estar mais preparado para enfrentar uma vida que seria pontilhada por insucessos financeiros, os quais o manteria sempre (com poucos períodos de fartura) usando racionalmente seus recursos e parecendo aos olhos dos outros que sempre viveu... folgado.
XXXIII
Essa é história do menino
que lutou feito um danado
querendo de todo jeito
ser de uma família agregado
mas por causa de ciúmes
sofrimentos e queixumes
ai,ai
sempre foi um rejeitado.
XXXIIII
Mas hoje em dia ele sabe
que a causa do seu sofrer
era porque entre eles
não havia bem querer
havia muita amargura
entre aquelas criaturas
ai,ai
que ainda vivem em sofrer!

O velho cantador/contador termina sua história mostrando que realmente quem é bom ou mau, já nasce feito.
Transcendendo, o velho cantador/contador, filosofa dizendo que há haver algo que recebemos de nossos ancestrais e algo que deveremos transmitir aos nossos descendentes, diferente dos caracteres físicos e, é aí que consiste a estada em cada um dos cinco reinos e a evolução do reino animal para o reino hominal.
O velho cantador/contador terminava sua narrativa dizendo que o agregado sempre alegava que um ato bondoso resgata milhares de atos maldosos, mas que ambos são necessários.
Ainda advertia que nunca deveremos ser o que pratica os atos maldosos para que mais tarde, como Judas, se arrependa amargamente, encontrando alívio somente na morte, fazendo com que sua mãe seja a mais infeliz das mulheres.

Deixava também, o velho cantador/contador de histórias o seguinte axioma: Todo homem é animal, mas nem todo homem é hominal.

XXXV
Hoje o menino é feliz
com nove entes queridos
um vivendo para o outro
no amor comprometidos
o ruim ele esqueceu
pois o que era bom venceu
ai,ai
todos os nove muito unidos!
XXXVI
De ninguém sendo juiz
hoje o menino venceu
procurando dar a todos
o que a vida não lhe deu.
Esta história é a verdade
digo sem uma maldade
ai,ai
Esse menino ...
XXXVII
Realmente esta história
horrível aconteceu
ouvi do próprio agregado
meu pesar apareceu
a vida é mesmo assim:
nunca um tratar ruim
ai,ai
o bom tratar escondeu!!

Finalizava o cantador/contador dando a impressão para uns, que ele seria o agregado; mas para outros que ele era apenas um cantador/contador.

Até Sete (Redondilhas)

Cumequié? Quequeisso!

Quequeisso, seu Menino, a vida prega peças na gente, que às vezes nós duvidamos se o que ocorreu foi conosco mesmo, mas...
Sempre gostei de escrevinhar o que me vinha à telha e às vezes saía coisas que eu nunca imaginava ser capaz de elaborar algo que poderia justificar este Quequeisso aqui? Pra isso apareceu a:

Trilha Rítmica

Há quem confunda
Poesia com verso.

Há quem confunda
Verso com poesia.

Dando uma de professor
Por certo eu afirmaria:
O corpo está no verso
E alma na poesia.

Será que o acima grafado é só verso?
Será que também é poesia?
Será que apenas há uma informação com fins didáticos?
Será que não está faltando a alma?

Eis aí o grande to be or not to be!

Versejadores do meu tipo há muitos, mas poeta?! Quase que exclusivamente primo pelo verso de pé quebrado. Manter sempre o mesmo ritmo é um saco. Desloco a tônica corriqueiramente sem me preocupar com ouvidos "eruditos". Pode ser que nos versos que se seguem haja alguma poesia, mas quem vai afirmar é você, leitor/ouvinte.

Tava pelaí, saboreando uma pinha (aquela frutinha com um sabor divino e que a mão de obra para saborear-la faz com que a gente desista até de comprar) e passei frente a uma Lapinha apinhada de curiosos.

Apinhar

A pinha apinha frutos
Saborosos e massudos!
A Lapinha apinha o quê?
Prestando atenção se vê!

Ao passar diante de uma vitrina notei que os transeuntes paravam alguns instantes e olhavam algo. Olhei curioso, e me veio este texto, pois o “algo” era um “Coração de Jesus”:

Aviso

O “Coração de Jesus”
Fica olhando pra mim.
Sua mão direita diz:
– Deixa-te estar coisa ruim!

Muitas das vezes nos perdemos em devaneios e num desses estava comparando como mestres eruditos e populares versejariam sobre o nosso Brasil varonil e me saíram estes:

Acrósticos cívicos

Se o Águia vivo fosse
Diria com erudição:
Barões mui degenerados
Rapaces abutres daninhos
Anões de orgias em erários
Sacripantas e meirinhos
Insidiosos insetos
Larápios comezainas.

Ou quem sabe o Aderaldo
Na penada gemedeira:
Bastardos filhos daquela
Roubam até a própria mãe
A tudo colocam um preço
Sem temer os amanhãs
Iludindo todo o povo
Ai, ai
Latem livres como cães.

Pensamentos conflitantes misturados com barriga vazia e boazonas aumentam pra danado o:

Apetite

Se tiver eu almoçando
E se mulher bonita eu ver,
Dana-se pra aumentar
A vontade de comer.

Certa feita, costumeira e desocupadamente perambulando pelaí, dei de cara com um culto relâmpago (curto ralampro, pros fiéis) proferido por um “irimão inspirado” em uma praça pública. Ouvindo os descalabros religiosos vindo daquela “coisa possuída” me deu vontade de “quebrar o pau” e em uma “zombadeira” fiz, em nome dELE uma:

Advertência

Meus sacros representantes?
Nunca deleguei poderes
A nenhum cabra safado
Mas fiquem me esperando:
Qual o quê?!
O de vocês está guardado!

Colocaram em minha boca
Palavras que eu nunca disse.
Fizeram-me de imbecil
Falador de idiotices
Qual o quê?!
Pregadores de crendices!

Essa história de perdão
Que eu vivo distribuindo
A troca de indulgências,
Que vocês vivem extorquindo:
Qual o quê?!
Cabras safados ladinos!

Para que eu quero o dízimo
Que vocês andam cobrando?
Vivem explorando os pobres
Que eu já estou castigando:
Qual o quê?!
Seus cafés estão se coando!

Me arranjaram um corretor
Pra alugar minha morada!
Minha mansão é motel
Pra hospedar gente safada?
Qual o quê?!
Cambada desocupada!

O Dante já informou
Onde são suas moradas
Representantes da besta
Bateram na porta errada:
Qual o quê?!
Hienas dissimuladas!

Eu já lhes dei o seu número
Representantes da luz!
A pobreza de espírito
Dizem que a mim conduz.
Qual o quê?!
Deixem estar, urubus!

A luz que vocês procuram
É a luz que ninguém quer
Pra clarear seus pecados
Quer seja homem ou mulher:
Qual o quê?!
Quem conduz é Lucifer!

Só vivem na safadagem
Praticam abominação
E quando ficam mais velhos
Rezam e pedem perdão.
Qual o quê?!
Pra cima de “moá”, não!

Ficam incitando os “sem nada”
Ao seqüestro e invasão
Dizendo que a terra é minha
Que são do meu filho irmãos.
Qual o quê?!
Eu tenho filho ladrão?

Os seus dias estão contados
Santinhos enganadores:
Pastores, padres, gurus
Monges, e doutrinadores.
Qual o quê?!
Deixem estarem, meus amores!

Se há uma coisinha que detesto é o anonimato. Mesmo sendo por motivo louvável acho o anônimo um cabra frouxo que sempre esconde algo. Se fizer digo que fiz e cé fini e priu... Gemo e gemo com gosto, pois acho que:

Anônimo é ser pervertido

Quando alguém se esconde
Por trás do anonimato
Pra mim deixa de ser gente
Virando um ser esquisito
Ai, ai
Anônimo é ser pervertido

Vive toda sua vida
Sem a devida coragem
De assumir os seus atos
Passando a ser excluído
Ai, ai
Anônimo é ser pervertido

Desprezado da família
Nem amigos ele tem
Por viver no anonimato
Vive no seu próprio lixo
Ai, ai
Anônimo é ser pervertido.

Se esconde da própria mãe,
(não do pai porque não tem)
Em sua vida solitária
De um ente enrustido
Ai, ai
Anônimo é ser pervertido

Nunca se viu um anônimo
Porque ele não existe
É couro de lobisomem
É político desnutrido
Ai, ai
Anônimo é ser pervertido

Com certeza ele descende
Da mais imunda escória
De seres degenerados
Do vivente esquecido
Ai, ai
Anônimo é ser pervertido

Uma coisa me amedronta:
É que sempre essa desgraça
Por incestuoso ser
Com seu pensar distorcido
Ai, ai
Anônimo é ser pervertido

Também fico apavorado
E de outra coisa temo
É que também pode vir
Por ser ele um maldito
Ai, ai
Anônimo é ser pervertido

Viver maquinando o mal
Sempre na obscuridade
Viver em eterna mentira
Em um viver descabido
Ai, ai
Anônimo é ser pervertido

Eu usei rima toante
Pra falar dessa criatura
Que merece dissonante
Mal-amada e malquerida
Ai, ai
Anônimo é ser pervertido

Rogo a essa peste uma praga:
Ouçam todos os diabos
Malditos e Satanás
Amarrem essa “ferida”
Nas profundas dos infernos
Onde é sua guarida.

A dia-a-dia nos ensina coisas que nenhum livro ou universidade jamais sonhou existir. Quer ver uma delas? A diferença entre o pioneiro e o piotário. Pioneiro é aquele que a “mídia” do momento consagra como tal e o piotário é o que realmente é o primeiro a chegar, ou fazer, ou... Conheci muitos piotários, muitos mesmo! Relendo Mestre Machado me veio outro:

Apólogo

Meu destino de agulha
É sempre de piotário:
Conduzir fio de ouro
Ou qualquer fio ordinário.

Terminado meu labor
Volto a ser enclausurado
Este destino me basta
E a toda eminência parda.

Sócrates, meu mestre, o sábio
(Eu que sou pedra de mó)
Deu-me destino igual
Nem melhor e nem pior.

Pois sendo ele um gago
Oratória ensinava.
Eu não sendo “cortante”,
Afio o gume da “faca”.

Vocês aqui, a minha sombra
Já por inúteis, descartados
Aprendemos uma lição
Por muitos ignorada.

Sempre temos de aceitar
As nossas limitações
Para vivermos felizes
Afastando frustrações.

Batalhas e mais batalhas entre o Bem e o Mal as travamos diariamente conosco mesmo e com todos, mas a que realmente preocupa é a que vencerá a guerra para que não haja nem vencedores nem perdedores e esta é o:

Armagedom

Cumpriu-se o que foi escrito
Pelo profeta João
O Cristo reinou feliz
Mas, com efeito trocado.
Qual o quê?!
Pois algo saiu errado!

Tudo isso aconteceu
Parecendo uma comédia
Pois quem mandava era o Papa
E virou uma tragédia.
Qual o quê?!
Durante a Idade Média!

Em nome de um pobre cristo,
Fortaleceu-se a Igreja
Com um matar de infiel,
Durante as santas cruzadas.
Qual o quê?!
Que quase não sobra nada!

O cristão matava o mouro
E matava o judeu
Só por causa do tesouro
Que por lá apareceu.
Qual o quê?!
Taça que o cristo bebeu!

E de lá até aqui,
Está a maior confusão:
Muçulmano trai judeu,
E judeu trai o cristão,
Qual o quê?!
Por sua religião!

Pagaram o mal com o bem
Foi vencido todo o mal
Pois prevaleceu o bem
Sobre o mal convencional.
Qual o quê?!
Hoje tudo é normal!

Hoje não existe o mal
Tudo agora é o bem
Ou o mal se tornou bem
Ou o bem se tornou em mal.
Qual o quê?!
A confusão é total!

Não mais sei o que é do bem
Nem tão pouco, o que do mal
Pois pago o mal com o bem
E pago o bem com o mal.
Qual o quê?!
A mistura é total!

O saque em nome da fome
Tornou-se coisa normal
E os bispos incentivando,
Dizendo que é natural.
Qual o quê?!
Saquear hoje é legal!

O cristianismo abençoa,
Toda a união carnal,
Macho se casar com macho,
Fêmea com fêmea é normal.
Qual o quê?!
Criou-se nova moral!

O terror da guerra santa,
Do islamismo radical,
É ensinado em escolas,
Em currículo especial.
Qual o quê?!
O ódio é fundamental!

A religião do amor
Está chegando ao seu final
Hoje tudo é prazer
Imediato e legal.
Qual o quê?!
O carisma é sem igual!

Destruir e torturar
Para todos é um dom
Matar para saquear
Fica sendo de bom tom.
Qual o quê?!
Isto é Armagedom!

Religiões e miséria
Ousaram uma união
Matando todos de fome
Atiçando a luta armada
Nunca ensinando o bem.
Ô gente desesperada

Afortunado é aquele jovem que do berço traz o respeito ao mais velho sem necessitar do:

Art. 229 da CF.

“Os pais têm o dever de assistir, criar e educar os filhos menores,
e os filhos maiores têm o dever de ajudar e amparar os pais na velhice,
carência ou enfermidade”.

Só agora, por anoso,
Percebo a fragilidade
Deste artigo impossível
E para os jovens, horrível,
Ai, ai
Essa é a realidade.

A tradição animal
(noves-fora o Adão)
Vem nos dar essa certeza
Pois a sábia natureza
Ai, ai
É quem nos dá a lição.

Primatas somos ainda
É a inconteste verdade.
O velho, por superado,
É para ser descartado
Ai, ai
Por pura necessidade.

De nada adianta artigo
(mesmo da constituição)
Criar dever impossível
Para o jovem inexequível
Ai, ai
Verdadeira aberração.

“Belo porque tem do novo
A surpresa e a alegria”.
Disse o João Cabral,
Poeta fenomenal,
Ai, ai
E o disse com maestria.

Não adianta o velho
Alegar experiência
Pois não entende o novo
O repetir-se - o de novo
Ai, ai
Comum da muita vivência.

Chegando a terceira idade
Vemos tudo com clareza:
Temos mesmo é de ser ricos
(ser pobre só traz fuxico)
Ai, ai
Dinheiro traz realeza.

A desgraça do mais velho
É de o novo depender.
Mudem a constituição
Escrevam leis de montão
Ai, ai
Que nada vai resolver.

Pois isso já vem no sangue
Dentro do DNA:
A velhice é uma desgraça
Que ao novo escorraça
Ai, ai
Não há quem possa mudar.

Se passamos dos sessenta
Aí a coisa complica:
Recebemos alguns direitos
(que acho muito mal feito)
Ai, ai
E nem mesmo o Freud explica.

Temos fila especial,
(ou coisa mais ilusória)
Temos transporte de graça,
No emprego, outra desgraça
Ai, ai
Nos setenta a “expulsória”.

Velho, velho, pobre velho!
Nosso tempo já passou.
Não queira que o jovem entenda
Nossa inútil contenda
Ai, ai
Nosso futuro minguou.

Tem coisas que nunca mudarão enquanto reproduzir depender de dois. Pode desaparecer por um tempo, mas sempre volta através do:

Atavismo

Dos “priminhos” chimpanzés,
Noventa e oito por cento,
Do DNA herdamos
E deles então, ganhamos
O hábito de ciumentos.

É que as “priminhas” primatas,
Não eram lá muito honestas,
Se o parceiro bobeava,
Por certo, logo ganhava
“enfeites” pra sua testa.

O macho guardava as fêmeas,
Em completa escravidão,
Todo êmulo afugentava,
Em lutas, por vez sangrenta,
Não respeitando nem irmão.

Entre nós, os primos sapiens,
Há uma herança genética,
Que afeta muita gente
(aquele de sangue quente)
E fere a sua ética.

E logo o atavismo,
Vem com uma carga total:
Pois a “gaieira primata”,
Fica sendo a coitada
E o urso é quem passa mal!

A gente pensa que coisas novas aparecem, mas elas já existiam e não tínhamos conhecimento. Às vezes ficamos abestalhados com o uso da parte posterior entre os moderninhos, mas isso já vem de longa data e por isso escrevi o:

Bacoanal

Fizeram uma fusão
De Baco, Como e Momo:
Foi criado o carnaval.
Prevaleceu a orgia,
Junto com a libertinagem
Criamos o bacoanal.

Ficamos muito felizes,
Usamos e abusamos
Da parte posterior.
O traseiro, meu irmão,
Agora tem outro trânsito:
Agora é dupla mão.

As nossas fêmeas queridas
Bem na parte dianteira,
Colocaram contra mão.
Frente é coisa do passado,
O rosto pode ser feio,
Mas o bum-bum – ajeitado.

Silicone às canadas,
Por todo o corpo aplicado,
Engana nossa visão.
Tomam formas naturais
Bichismo e sapatonismo
E todos ficam iguais.

Três dias de safadagem,
Livre de todo o pecado
E no quarto o perdão.
A cruz de cinza redime
Dos pecados capitais
E há sagrada redenção.

Favelas romantizadas ou alvo de páginas policiais.

Brasil favela

Brasil caboclo acabou-se
O campo está deserto
O tabaréu endoidou
Fazendo do errado o certo
Ajuntou-se em favelas
Pra do “progresso” estar perto

Invadiu morros e mangues
E biboca construiu
Corrompeu-se e se drogou
Criando um novo Brasil
Que nada tem de inocente
Nem tampouco varonil.

O Brasil dos que lideram
Corruptos e corruptores
Brasil dos analfabetos
Brasil dos raros doutores
Brasil dos fiéis de seitas
Brasil dos padres e pastores.

Brasil das não feministas
Vendedoras de carícias
Brasil que se abre em sexo
Brasil, Brasil, que delícia!
Brasil que é um bordel
Pra arrimo da polícia.

Brasil dos morros e favelas
Brasil narcotraficante
Brasil do pó e do crack
Que dão emprego ao infante
O Brasil que é a formiguinha
Do tio Sam, o elefante.

Brasil de edir e marcelo
De rr soares
Brasil dos tronos de deus
O Brasil dos lupanares
Brasil, a grande favela
Pontilhada de altares.

O Brasil que luta contra
O trabalho infantil
Mas que cria por tabela
O bandido juvenil
Pois quem não trabalha cedo
Viverá como um ser vil.

Não mais Brasil *das cabocla
Que machucam os vriges peitos
Nos batentes das jinelas*
Pois trocaram o respeito
Para ser a “poposuda”
De um “tigrão”, seu eleito.

Brasil criança esperança
O Brasil da fome zero
Brasil da bolsa escola
Brasil do vale alimento
Brasil assistencialista
Populista e molambento.

Brasil sem categoria
Dos lixões e invasões
O Brasil que se descuida
Da viúva e do velho
Brasil que vive à sombra
Da miséria do evangelho

Brasil da caixa e do jogo
Brasil de deuses e fiéis
Brasil de muitos “lalaus”
E de poucos menestréis
Brasil de muito “nho sim!”
E de raros bacharéis.

Que o Cabral “descobriu”
E por aqui não voltou
Mas a “fé e o império”
Por cá ele semeou
No lugar nasceu “favela”
Que cresceu e “prosperou”.

Prosperou e deu bom fruto
Fruto que foi para diante
Fruto para incentivar
O adolescente infante
Fruto até para exportar
Fruto narcotraficante.

Grande Brasil varonil
Eternamente criança
Bebê em um berço esplêndido
Brasil, Brasil da lambança
Entre brincadeiras mil
Rica “criança esperança”.

Tendo em vista que entre mortos e feridos sobreviveram todos me veio à mente uma:

Catástrofe

Casamento é uma catástrofe
Na qual sempre a gente insiste
Vejamos: o que escapa
Passa a ser um supérstite.

Não o dou a ninguém, mas quem quiser seguir lá vai um:

Conselho ancestral

A quem se deve seguir,
Pra viver eternamente,
Bem contente?

Deve-se seguir só Brhama
E a tudo renunciar.
Muito drama!

Deve-se seguir Javé,
Para todos dominar.
Não dá pé!

Deve-se seguir Alá
E o terror espalhar.
Não vai dar!

Deve-se seguir Jesus
E ser pobre de espírito.
Credo em cruz!

Escutando os conselhos
Dos nossos antepassados
E mais velhos:

É bem melhor estar só
Do que mal acompanhado!
Diz vovó.

Podemos, a nosso bel-prazer, mudar verdades “imutáveis” e para isso basta que tenhamos uma equivocada:

Consciência

Momentos hão de nos vir
Que não nos basta a consciência
Pra podermos discernir
Entre o bem e o mal.

Necessário se faz sempre
Uma busca incessante
À procura, em nossa mente
De uma verdade constante.

Decidimos a bel prazer
Da nossa moral doentia
Qual o bem que vamos ter
Pra nos trazer alegria.

Os vários padrões morais
Junto com a geografia
Nos transformam em animais
Plenos de sabedoria.

Misericordiosamente
Por nós mesmos perdoados
Podemos seguir em frente
Livres, limpos e depurados.

Os deuses-pais aplacados
Nas suas iras infernais
São por nós mesmos mudados
Em seres celestiais.

Há verdades que realmente são imutáveis e entre elas devemos sempre exercer o:

Controle

Mulher é que nem passarinho
A gente com ele na mão:
Se afrouxar: adeusinho,
Se apertar, vivi não!

Pois em se tratando de “elaszinhas” se liberar um pouco logo adquirem um mal:

Costume

Quando a mulher é volúvel
Nem a ciência explica:
Se ela prova outra p...
Qual o quê?!
Nem na terceira ela fica!

Mas quando já não “dá mais caldo” se torna “fiel” e segue seu

Caminho para a cruz

(aos “pobres de espírito” que se dirigem
aos “salões e assembréias” das favelas)

Do alto do edifício
No amanhecer tremeluz
Vejo passar no domingo
Pulando quais cangurus
Os excluídos da vida
Que a miséria convida
E a ignorância conduz.

Nas favelas, e lixões
No meio dos urubus
Vejo o povo caminhando
Para o salvador Jesus.
Sempre dão uma paradinha
Pra uma papa de farinha
E uma quarta de cuscuz.

O ambiente perfeito
Para as mosquinhas azuis
Porém sempre seus ovinhos
Que se viram em tapurus.
Vai feliz e satisfeito
Por achar que é direito
Caminhar para Jesus.

Prostitutas e tarados
Andam em busca da luz
Que esse deus vaga-lume
Os envia lá da cruz.
Com sua alma sofrida
Caminha pra outra vida
A passos de avestruz.

Traficante ou bandido
Que sempre à morte conduz
Maconheiros viciados
Mendigos de corpos nus.
Segue a horrenda procissão
Dos “limpos de coração”
Que a miséria seduz.

Por fé de mais, fé de menos
Fedem que nem timbus
Cada qual mais fedorento
A carregar sua cruz.
O santo sangue os lavou
Mas na alma inda ficou
O aroma de urubus.

São sepulturas caiadas
Almas de pretos anuns
Cegos guiando outros cegos
Qual mariposas pra luz.
Vão tristes ao matadouro
Em busca do seu tesouro:
O seu deus triste, Jesus.

Não são ovelhas, são burros
Levam cangalha, não cruz
Por entre montões de lixo
Que a miséria traduz.
Livro santo à mão presa
Exibem toda pobreza
Que a ignorância produz.

Tocados por um tropeiro
Que só muares conduz
Seguem em fila indiana
Aos pulos qual cururus,
Por entre poças de lama
Obediente burrama
Seguem direto pra cruz.

Riqueza sempre é pecado
Homem/Deus/Santo/Jesus
Onde quer que se ajuntem
Miséria sempre os conduz
A tristeza é o seu guia
Nada da meta desvia:
O caminho para a cruz.

Mas mudemos nossa prosa e vamos devanear transpondo imagens e saudades criando o:

Canavial-mar

“Enquanto a manhã nascia
No bico agudo do galo”
O carreiro ajunta o gado
Pra ser motor de arado.

Em sua faina diária
Com aboio e chamamento
Junta o gado sofrido
Pro seu contínuo tormento

Faz a parelha, encanga
Nas pontas passa a correia
Prende o couro do canzil
O astro rei nem clareia.

Na semi-escuridão
Segue a junta seu roteiro
Traçado pelo ferrão
Da vara-mão do carreiro.

Marcha o carreiro na frente
Da junta, seu pelotão,
De aguerridos valentes
Seguindo seu capitão.

No Aral a tropa para
Junto ao arado, qual foice
Feita pra cortar a terra
Com junta – cambão e coice.

Acorrentada ao arado
Com a sina de o arrastar
Para que rasgada a terra
Possa a semente plantar.

Plantada dorme a semente
Seu sono curto na terra
Mas surgira de repente
Quais mil soldados pra guerra.

E a terra, mãe amorosa,
A cor da esperança toma
Esperança depositada
Na recém-nata – a cana.

Que cresce a passos largos
Robusta e bem tratada
Pelos constantes afagos
De sua babá-enxada.

Babá esta que a trata
Com carinho maternal
Até que adulta se torne
Num verde canavial.

Para que quando o vento
A brisa nele soprar
Venha-nos ao pensamento
As ondas calmas do mar. (09/05/69)

Poetar e cantar se confundem quando há descontração no linguajar sem, contudo, haver desleixo. “Cantar” sem encanto se transforma num:

Canto

O canto preso em um canto,
Não é canto verdadeiro.
Se preso em quatro cantos,
Nem vale trinta dinheiros.
Canto preso na garganta,
Reverbera, não adianta,
Como o cantar no banheiro.

Não é canto é garganteio.
(gargantear, não cantar)
Canto partido ao meio,
Grulhar ou grugrulejar.
Gárgula plena de mágoas,
Canto fluido como água,
Não é cantar, é grasnar.

Mas, há um canto diferente!
Um cantar que é um grito!
Um cantar livre no espaço!
Um canto para o infinito!
Um cantar fenomenal,
Enorme, descomunal:
O do poeta erudito.

Canto para ser cantado,
Não livre no mundo inteiro
Nem solto nas pradarias,
Como um audaz pregoeiro.
É canto pra ser cantado
E na garganta afogado,
Nos cantos de um banheiro.

Lembranças à parte (e por toda parte) veio-me à mente(que não mente) um amigo virtual, “lulista” ferrenho, o meu caro Lumone, que me proporcionou uma “parceria” (entre parênteses) sobre:

Cem dias sem FHC

Nesses primeiros 100 dias
(sobreviver quem diria)
O país respira aliviado
(com greve pra todo lado?)
E o povo está confiante
(bem pior do que era antes)

É Lula-lá-lá, pra todo lado
(com Lula-lá-la adoidado)
Com 100 dias sem FHC
(100 dias sem FHC)
O povo confia, pois vê
(em se olhando se vê)

Comptência dando resultado
(comptência pro errado.)
Quem previa total descontrole
(viu crescer o descontrole)
Motivado pelo preconceito
(viu esvair-se o respeito)

Com o rabinho entre as pernas
(o rio virou baderna)
Está até meio sem jeito
(são paulo está sem jeito)
Com 100 dias sem FHC
(100 dias sem FHC)

“o Lula provou pra você
(Lula provou pra você.)
Que sabe governar direito
(que faz ruim e faz bem feito”.)
E o medo que a Regina tinha
(se a Regina medo tinha)

Do Lula que é “paz e amor”
(do Lula rapaz que armou”
Hoje se sente lá nos “states”
(não pode ir pro “states”)
Onde Bush é o imperador
(onde Bush é o imperador)

Nos 100 dias sem FHC
(100 dias sem FHC)
A Regina já deve saber
(a Regina vai saber)
Que o Lula tem muito valor
(pru que o Lula num é “doto”.)

E o programa “fome zero”
(o “porgama” “fome zero”)
Que hoje existe de fato
(é pro povão um “barato”)
Há de trazer esperança
(traz, com Jesus, esperança)

E também comida no prato
(e põe comida no prato)
Com 100 dias sem FHC
(100 dias sem FHC)
Estão vendo enfim que comer
(estão vendo, mas sem comer,)

É do homem um direito nato
(o seu direito de fato.)
E apesar de vários tropeços
(mudando de “endereço”)
E das medidas neoliberais
(com “esquerdas neoliberais”)

Considero um bom começo
(considero um mau começo)
Embora espere bem mais
(e sei que vem muito mais)
Só 100 dias sem FHC
(100 dias sem FHC)

É pouco demais pra se ver
(uma coisa já se vê)
Do que Luís Inácio é capaz
(Lula já mudou de mais)

Rimei com o Lumonê
Homem de “amor e de paz”
O amigo fiel do Lula
Mas melhor e mais capaz
Amigo aqui do “anoso”
Nunca foi desrespeitoso
Ordeiro e bom rapaz.

No passado lá pelos idos quarenta, quando menino, vivia sendo “feliz e não sabia” com:

Chica

Lá na Rangel, 38,
Bem no segundo andar,
Nos idos quarenta e sete.
(eu que vinha de carreira:
Havia fugido das tias)
Encontrei mãe verdadeira.

Francisca Accioly, Chica
(por todos era chamada)
Solteirona e recatada,
Já muito entrada em anos,
Me deu todo o seu carinho
Melhorou meus desenganos.

Foi quem pensou os meus males,
Meus “dodóis” e machucados,
Meus medos e meus cuidados,
Meus achaques de criança,
Me tratando como filho.
Ai,ai
Como dói esta lembrança!

– Ô que menino treloso,
Parece que tem cotoco!
Vem logo tomar seu banho,
Você tem de estar limpinho,
Já e já seu tio chega.
Ai meu Deus, quanto carinho!

– Ô Chica, me dê mais pão
E agora me dê leite.
– Ô que menino pidão,
Parece esmeril de frança!
E eu comia satisfeito!
Como sabe esta lembrança!

– Te aquieta “raio stupores”,
Não aperreia dona Chica!
Suba para estudar.
Falava o seu João Lima,
No térreo, comerciante.
Ô que saudade infinda!

Chica e Chica, Santa Chica,
Perdoai os meus pecados,
Meus pecados de menino!
Só agora eu compreendo,
Ai,ai,
Como inda sou pequenino.

Não sei o que mais me irrita se o anônimo ou o:

Clonador

É um clone, o clonador
Mas um clone diferente:
Nem burro nem inteligente
Nem santo nem malfeitor.
Porém tem ele algo mais
É feito de muitos pais
Cada um, um doador.

Porque sua genitora
É da área portuária
Uma catraia operária
Mas muito trabalhadora.
Trabalha noite e dia
Atendendo a freguesia
De pulhas e malfeitores.

Desse jeito ele foi feito:
De zil “colaboradores”
De pulhas e estupradores.
É do caos um ser perfeito:
Falsário e salafrário
Desordeiro, imitador
Sem caráter e sem respeito!

Come o que outro vomita
Essa besta destruidora
(come até a genitora)
Nada faz tudo imita.
Se tem alguém importante
De imediato ele clona
É essa sua desdita.

Sua mãe é a Maria,
A Maria batalhão,
Transa por qualquer tostão
Essa cadela vadia!
Pra pagar a internet,
Desse pixote pivete
Vai ao porto todo dia.

É uma coisa indecente
Esse tal de clonador:
A mente de pixador
(que é uma mente doente)
Faz dele um delinqüente
Uma coisa diferente
Que nem é bicho nem gente.

É somente um clonador:
Produto de muitos pais
Sofredor de muitos “ais”
Cibernético pixador.
Não pode retroceder
Pois só quer aparecer
Esse pobre sofredor!

Frente ao espelho não se vê,
Pois vive no anonimato,
Acha-se o “maior barato,”
Ter sempre de se esconder.
Até tem algum valor
Mas deve sentir a dor
De nunca poder dizer.

Dizer que é obra sua
Que ele também é gente
(mesmo sendo diferente)
Essa é a verdade crua.
Uma desgraça ao léu
Não terá direito ao céu
Vai se acabar pela rua!

Vive espalhando a dor
Essa figurinha triste
Em fazer o mal, persiste
Sabendo que é malfeitor.
Faz pena ter de dizer
Mas o filho dessa coisa
Também será clonador!

Restolho de muitos nomes
Obra de infinda feiúra
Megera que se consome.
Abominável, maldito
Nega o seu próprio ser
Onde ficará seu nome?

Mas deixemos este infeliz clonador e nos voltemos para o astro rei que nos proporciona uma:

Coisa bunita

Valei-me Sinhora minha
Num ai coisa mais bunita
Do que se vê à tardinha
O só vremei que nem fita.
Pru riba das serrania
Ele deixa a gente oiá
Pra sua soberania sem
Os óios marejá.

Ah! Seu moço sô feliz
Pois já vi coisa bunita:
O só da cor do rubi
Vremei que nem a fita! (1965)

Sonhar é bom, mas ás vezes o ato concreto faz a diferença em uma:

Conquista

– Meu vômer hiperativo
Interceptou seu FEA.
Disse o amado erudito,
Bastante atualizado,
Para a sua nova amada.

Ela sem entender nada,
Retrucou: ― Fea é a mãe!
Pois saiba que eu sou linda
E digo-lhe mais ainda,
Pelos homens desejada!

Vendo que só havia um jeito
De impressionar sua paixão,
Voltou ao estilo clássico:
Sacou de um bolso a carteira,
(recheada com cartão)

Do outro, os talões de cheques.
(todos eles especiais)
Incontinenti a resposta:
– Ó amado, me perdoe,
Por eu ser byroniana!

Captei seus “ferormônios”
E estou plena de sonhos!
(com butiques e cruzeiros)
O seu real verdadeiro,
(e não o meu bovarismo)
Partilharei com você!

Coração! Coração é terra que ninguém anda e lá é uma:

Cova perfeita

A mulher é bicho falso
Perigoso, traiçoeiro
Te digo, meu companheiro
Com toda convicção.

É pior do que ladrão
Assassino desalmado
Só presta pra ser matado
Co'a ponta do meu facão.

Cortado e esquartejado
Descarnado e espedaçado
E depois ser enterrado
Dentro do meu coração. (1965)
Sei que uma condição especial do amor não deve escandalizar ninguém e que muitos amados são:

Cornos

Um par de cornos não existe,
É um recurso ardiloso
Inventado por esposa
Para cabeça de esposo.

Só casado leva corno
E isso é verdadeiro,
Pois se quiser viver mocho
Não case: fique solteiro.

A vantagem de se ter
Como mãe, uma solteira,
É de termos a certeza,
Que ela não foi “gaieira”.

Mãe solteira dá ao filho
Uma coisa verdadeira,
Pois seu ato sempre diz:
― Sou*uta, mas não “gaieira”.

Existe um texto sagrado
Que uma verdade nos deu:
Há uma linda avezinha
Que é pomba de um deus.

E esta pomba sagrada
Do céu à terra baixou
E através da mulher
Um bom homem enfeitou.

Esta “gaia” é sacrossanta
E à verdade conduz
E nela “pomba” faz filho.
Não acredita, ó sem luz?

A mulher tem o direito
De enfeitar o esposo
Se ele somente for:
“gastoso”, e não gostoso.

Esposo que é só gastoso,
Dá segurança e recurso,
Pois o prazer de viver
A esposa tem com o urso.

Brincadeiras à parte e nos reportemos ao rei do Cariri que é o:

Crato

Cravado no Cariri
Onde verde é sempre o mato
Fincado num pé de serra
Onde moro: é o Crato.

Saio do Crato, subo a serra
Vou no rumo do Exu
Por cima de uma chapada
Que é bonita pra chuchu.

Sigo então pra Bodocó
Cidade boa e singela
Terra de gente ouro em pó
E de caboclinha bela.

De lá pra Ouricuri
Terra de cabra valente
Bem perto do Piauí
Onde lá o tempo é quente.

Subo pra Araripina
Passo em Espírito Santo
Terras de lindas morenas
Eu afirmo e garanto.

Volto então pro Ceará
Só pra curar os meus males
Vou ansioso pra chegar
Logo, logo em Campos Sales.

E de lá eu faço rumo:
Santana do Cariri.
Eu já vou que não me aprumo
Vou rever o meu “Padin”.

O coração vai à frente
Segue atrás o corpo ingrato
Mas fico todo contente
Quando avisto o meu Crato

Mesmo que eu quisera
Não posso sair daqui
Vivo em um pé de serra
Que é o vale do Cariri

É o rei do Cariri
Lhe afirmo sem ser chato:
Toda esta beleza aqui
Se resume no meu Crato. (1969)

Mas... Saudades à parte e vamos a um culto bárbaro que é o:

Culto ao morto

A limpeza já foi feita,
Jarros novos, muita fita,
Flores lindas, dor perfeita,
Tudo pronto pra visita.

É a festa para o morto,
Mas o morto não quer festa!
Cultuar o que não resta!
Sem o corpo presta o morto?

Pois o morto sem seu corpo,
Só existe em nossa mente,
E a mente sempre mente,
Nau à deriva, sem porto!

Qual o morto prantear,
Saber ao certo quem há de?
Ledo engano cultuar,
Os próprios restos. Quem sabe!

Outro costume que devemos preservar é persignar-se e a cruz faz um:

Decote perfeito

Pra mulher estar bem vestida
E não haver empecilho
O decote deve ir
Até onde se faz o "filho".

Ainda dentro da crença de cada um filosofemos com os:

Definitivos

Só há dois definitivos
Pra nortear nossa sorte:
Para o espírito – a dúvida
E para o corpo – a morte.

Há presentes e presentes, mas o que dói é o:

De grego

Eu te vi, nem me viste.
Eu te amei, nem me amaste.
Eu fiquei, tu partiste,
Porém deixaste a saudade.
Tira do sério a prepotência de um "intelectual" quando cria um:

Desvio

Um vate muito erudito
É um ser interessante:
Tenta descrever uma flor,
Descreve um rinoceronte.

Aquele que teve a felicidade de receber a sabedoria dos seus avós entende o que é ter:

Dindos

Meus avós: Dindo e Dinda:
Deixaram lembranças infinda!
Meu avô, senhor de engenho –
(quanto orgulho que tenho!)

Minha avó, a carinhosa –
(me fez pessoa dengosa!)
Meu avô, o caçador –
(quanta coisa me ensinou!)

Minha avó, a paciente –
(me fez um ser indulgente!)
Meu avô, o agricultor –
(quanta beleza plantou!)

Minha avó, a rezadeira –
(me deu fé pra vida inteira!)
Meu avô, o pai de família –
(era uma maravilha!)

Minha avó, a que sabia –
(era somente poesia!)
Meu avô, o sonhador –
(quantos sonhos me deixou!)

Minha avó, a jardineira –
( rosa em meio a roseiras!)
O meus Dindos, na verdade,
Hoje se chamam – Saudade.

Mas, saudades... Passado! Melhor é o presente com seu:

Dilema

Num motel a promoção:
“cozinha internacional”.
A mulher é sobremesa
Ou é prato principal?

E por voltar a mulher há mulher e mulher. Umas somente são:

Dores

Mulher muito faladeira,
Incomoda por castigo.
É pior que dor de dente,
Dor de barriga e de ouvido.

Mas há dores bem piores que estas. Há a dor da ignorância pelo:

Descaminho sacro

É certo que dei meu filho,
Para dar-lhes vida eterna,
Mas vocês exageraram
E estão fazendo baderna.

O Saulo na sua queda,
Bateu com o quengo no chão
E a luz que ele viu,
Não foi do meu filho não.

No seu crânio recebeu
Uma grande contusão:
Lúcifer conduz a luz,
Ele fez foi confusão.

Daí pra diante armou-se,
Um verdadeiro barraco,
Quem era a favor do forte,
Virou defensor do fraco.

Transformaram o meu filho
Em mera mercadoria,
Que se vende pelos templos,
Mudados em mercearias.

Pegaram o meu pobre filho,
Que ia livrá-los da lei,
Deram uma nova aparência,
Ele ficou meio gay.

Olhos verdes, pele branca,
Longo cabelo ondulado,
Mais parece um modelo
Um galã televisado.

Convenceram-se que ele,
Era o perdoador,
Revogaram logo a lei
Tudo agora é: paz e amor.

Promoveram o meu filho,
Pra arauto de safadezas,
Instrumento de barganha,
Pra amealharem riquezas.

Pelos salões dos edíris,
Anda a atrair multidões,
Para que pagando o dízimo,
Venham pra minha mansão.

Através de muitos “fábios”
Que encenam sua “paixão”,
Virou símbolo sexual,
Agora é um tesão.

Sacrifiquei o meu filho,
Para o perdão dos pecados,
Não para através dos “rossis”
Ter fiéis “achimpanzado”.

Dei o meu filho querido,
Para ser o salvador,
Não nos pés dos “marcelinhos”,
Andar fazendo até gol.

Até as “gretchens” da vida,
Rebolando seus bumbuns,
Dizem que são abençoadas
Por esse novo Jesus.

Digo: meu filho Jesus,
Limpo, perfeito e puro,
Não é o “Jesus” de vocês,
Afirmo, garanto e juro!

Mas falemos de coisas mais concretas como mestres em Cordel. Mestre que às vezes, por zelo, pegam pesado com novatos e foi por este motivo que disse:
Devagar com o andor

O Fiúza e o Lira
O Lira e o Fiúza
São dois mestres no Cordel.
Os dois na terceira idade
(que pra mim é a primeira)
Pois é idade verdadeira
Digo com muita vaidade.

Tão pelejando há tempo
Esses bardos cordelistas
Um vai na falha do outro
Todos na medida certa.
Pois desafio é assim
Só acho um pouco ruim
Quando um deles “desembesta”

Desembesta e descamba
Deixando agente nervoso
Apertando o coração
Que nem o pinto mo ovo.
O metro às vezes falha
No calor da discussão
Mas ajeita e fica novo.

Só que a palavra escrita
Para sempre vai ficar
Vai é se eternizar
Por esse mundo afora.
Um falar na mãe do outro
Eu não acho de bom tom:
Pensem em nossa senhora!

Pense o tanto que sofreu
Essa mãezinha exemplar
E a grande dor que sentiu
Vendo o seu filho sofrer.
Com mães aqui ou no além
Pois elas sofrem também
Sem nada poder fazer.

Um deve “bater” no outro
Deixar o outro “molinho”.
Cacete com pau de quina,
Mas deixe as mães resguardadas!
Pois a coisa fica feia
A palavra má campeia
Ficam as mães desamparadas.

Gosto de ouvir e de ler
Desafios “esquentados”
Quero ver cabra apertado
Pulando da “cipoada”.
Mãe é um ser sublime
Que deve ser adorada
E não vilipendiada.

Eu gosto de amizades
E aqui dentro da Usina
Eu a ninguém denegri
(mas eu já estou clonado)
E o autor do meu clone
Transa” com a própria mãe
Imaginem o resultado.

Escreve usando meu nome
Pois fica no anonimato
Não assume o seu ato
Como o pai não o assumiu.
Se lerem coisa ruim
Em que usaram meu nome
Foi “o que a porca pariu!”

Reconheço, meus amigos,
Hoje, aqui e pra sempre
O melhor é estar contente,
Mestre Fiúza e Lira.
Arranque o couro um do outro
Não bulam com as mãezinhas
Ouçam este cabra anoso!

Um pouco de sátira não faz mal se prestarmos atenção no:

Ditirambo ao abstinente

Admiro-te, abstinente,
Quando não dás o teu voto
Nas questões mais cruciais,
Alegas neutralidade
E te absténs de juiz
Nas questões nacionais.

Admiro-te, abstinente,
Quando não te envolves em perigos
Pra defender tua família,
Não punis corruptores
Que destroem nossa pátria,
Impondo-nos maus valores.

Admiro-te, abstinente,
Quando usas o talvez
Em nome da diplomacia,
Nunca falas sim ou não,
Provando para teu próximo
Que tens um bom coração.

Admiro-te, abstinente,
Quando aceitas falsos deuses,
Mesmo que não acredites
Acordando com o inimigo,
E usando a temperança
Te eximes do castigo.

Venero-te, abstinente,
Pois não te envenenas nunca,
Evitas drogas pesadas,
Livrando-se de todo mal
Te absténs de consumir
Tanto ideais como sal.

Idem, idem ao:

Ditirambo à ignorância

Ave, ó ignorância,
Origem de todos os males,
Mãe dos aproveitadores!

Só vós sabeis explicar
O castigo do pecado,
O viver amargurado
Na eterna ira de deus.
O inferno tenebroso,
O sexo pecaminoso,
No falar insidioso,
Qual o quê?!
Do gestor religioso.

Ave, ó ignorância,
Origem de todos os males,
Mãe dos aproveitadores!

Vós às leis darei um jeito,
Guiando-as a nosso modo
Pra melhorar nossa renda,
Pois cego não bota venda,
Nos incisos e emendas,
No falar tal qual uma teia,
Quando a verdade falseia,
Qual o quê?!
O da porta de cadeia.

Ave, ó ignorância,
Origem de todos os males,
Mãe dos aproveitadores!

Vós fareis que acreditemos,
Que haverá esperança,
Todos seremos felizes,
Pois somos todos irmãos,
Ou pra o sim ou pro não
Quando por palpo de aranha
Fala e a honra barganha,
Qual o quê?!
No político sem-vergonha.

Ave, ó ignorância,
Origem de todos os males,
Mãe dos aproveitadores!

Vós nos permitis confiar,
Pois só quereis nosso bem,
Dando-nos a segurança,
Nos tratando com bondade.
Pela nossa soberania,
Lutando com galhardia,
No falar só inverdades,
Qual o quê?!
Nas nossas autoridades.

Ave, ó ignorância,
Origem de todos os males,
Mãe dos aproveitadores!

Ensinai-me a perdoar,
Ao invés de castigar,
Outra face oferecer,
Caminhar sem ter vontade,
Falar por meias-verdades,
Toda ofensa esquecer,
Viver o inferno na terra,
Qual o quê?!,
Para o céu merecer.

Idem, ibidem com um sentimento profundo de pena para este:

Ditirambo ao ébrio

Ó ébrio, adorável ébrio,
Com teu andar tropeçante,
Causas o riso constante
Para toda a populaça
(que ri da tua desgraça).

Adorável ébrio, asseguras
Para as gerações futuras,
Seguindo o mesmo trilho,
O rirem do teu martírio.
(também rirão do teu filho?)

Adoro-te, ébrio, porque
És democrata demais,
Tens filhos de outros pais,
E manchar-te a honra quem ousa!
(por que divides a esposa?)

Ébrio, adorável ébrio,
És orgulho do teu filho
Quando cais no lamaçal
Para esqueceres o teu mal.
(impõe-lhe tua moral?)

Ébrio, és filho adorado,
Pelo pranto derramado,
És o porvir, o amanhã
E orgulho de tua mãe.
(ao vilipendio a expõe?)

Ébrio, retenho tua imagem
Quando ao cairdes na rua,
Fala teu filho criança,
Com embargo na garganta:
(“levanta, meu pai, levanta!”)

Idem e ibidem com uma dose de tédio para este:

Ditirambo ao purista

És meu ídolo, purista
Quando em nome do estilo
Estrumas o linguajar
Purificas todo o texto
Modelando-o a teu jeito
Em uma correição sem par.

És meu guru, ó purista
Quando criticas os dias
Os assis os mários os rosas
Por as normas perverter
Em nome da emoção
Dando ao texto outra forma.

Admiro-te, purista
Por manter a forma
Pura quando libertas o texto
E estupras a oralidade
Formalizando a emoção
Em nome da vaidade.

Amo-te, purista (artista)
Quando escoimas o texto
Livrando de impurezas
Pra dá-lo sobriedade
Deixando-o na verdade
Desprovido da beleza.

Mas mudando de assunto examinemos com cuidado a:

Dramaturgia moderna

Os autores de hoje em dia,
Especialistas em novelas,
Estão criando um modismo,
Que só o demo resiste
Aos assuntos principais.
Qual o quê?!
“gay”, homem frouxo e “chifre”.

Das quatorze às vinte horas,
Em qualquer uma estação,
É novela a dar com pau,
Que aborrece o cidadão,
Pois só se vê é porcaria.
Qual o quê?!
Coisa boa tem mais não!

É filho chifrando pai,
É irmão “comendo” irmão.
Nossas avós prostitutas,
Nossos avôs uns ladrões
E a corrupção vem dos nossos
Qual o quê?!
Antepassados anões.

O homem é um “bananas”,
A mulher dominadora,
É um gayísmo
Danado, o galã vira galoa
E quando acaba a novela,
Qual o quê?!
Se desmancha na cenoura.

Para o desfecho dramático,
Desabrocham os “enrustidos”,
Fica esposa com esposa
E marido com marido
E na catarse global,
Qual o quê?!
Ficam todos assumidos.

Faz parte da estrutura humana a:

Dúvida

Lutei contra a humanidade,
Contra toda a humanidade,
Esta humanidade vil,
Que falseia com a verdade,
Que é fraca é servil.

Comigo mesmo lutei
E em mim mesmo encontrei
A dura realidade:
Eu sou a humanidade
Doente, fraca e febril.

Rastejando pela lama,
De minha humanidade,
Me fiz uma raridade
E até adquiri fama:
Fama e celebridade.

Celebridade em vileza
E em vileza me fiz forte,
Em vileza me fiz nobre,
Vileza descomunal:
A vileza imortal.

Imortal e imoral.
(até mesmo pra vileza)
Imoral, vil e servil,
(do vilipêndio um atleta)
Terei alma de cristão?
Terei alma de pateta?
Terei alma de poeta?

Neste mundo moderno há muitas doenças novas ou recém descobertas. Doenças que atingem corpo, alma e bom senso como é o caso da:

Ecopatia

Para o oleiro a argila
E para o músico o som
Pra marceneiro a madeira
A bondade é para o bom.

Verdade pro verdadeiro
Poeta é pra poetar
A riqueza é para a rica
Ecoante é pra ecoar.

Sofro de ecolalia
A minha dor é profunda
Só sei falar ecoando
Penso na palavra *unda.

Mas logo vou dispensando
Esta sina desgraçada
Pois para mim é castigo
Ecoar pelas estradas.

Ouço o som e o repito
Não converso, desconverso
Não sei como se faz verso
E nem tampouco sei rima.

Penso logo na menina
Do meu tempo de menino
Vivendo só de delicias:
Tempo bom o de traquino!

Para colocar na forma
Este ecoar medonho
Às vezes a pensar me ponho:
Só mesmo sendo besteira!

Sem pomar sem laranjeira
Nem tampouco sabiá
O que me resta fazer:
Ecoar! Só ecoar!

Lembranças podem reabrir feridas mal cicatrizadas se se ouvem:

Ecos

Ecos definham (ó triste eco)
A fonte primeira dos ecos,
Num consumir-se constante,
Por queixumes torturantes.

Reverberando retornam,
Qual raivosos rugidores,
Que rasgando revoltados,
Revolvem todo o passado.

Voltam e vociferando,
Vergastam, vasentos vermes,
Vis vampiros de velório
Com venenos viperino.

Vândalos vulgarizados,
Vasculhando vastidões,
E se vangloriando, vaiam,
Recordando o passado.

Torturas voltam aos montes,
Por esse recordar tétrico,
(bendito o torturador
Com terrível fio elétrico?).

Feridas abertas na alma,
E que nunca cicatrizam.
Mesmo na eternidade,
Curar-se delas quem há de?

Há sempre a possibilidade de reversão mesmo em um:

Éden

Se quiser mulher perfeita,
De crédito, dê um cartão.
Se você tomar de volta,
Vai ver logo num repente,
A santinha virar cão!

Enxerimento

Mulher quando é metida,
Não sabendo seu lugar,
É como a lua de dia:
Tem lua, mas não luar.
Certos vocábulos mudam de significado dependendo de interesses escusos como é o caso do:

Edirmacedismo

O dízimo (que é anual
E o décimo dos bens)
Modernamente, porém
Transformou-o, a universal
Em “propina” semanal
Pra subornar o além.

Dá-se dinheiro ao pastor
Pois somente ele pode
Dividir certinho “os cobres”
E repassar pro senhor,
Mas não tem bolso o senhor
Vai o suborno pros pobres?

Não! Vai para a pastoral
Vai também para a piscina,
Pro “garotão”, pra “menina”
Pro “carango” do pastor
E pra que mais se destina?
Para os bancos na suíça.

A virtuosidade pode ser um:

Engodo

Há esposa virtuosa
Que é muito interessante:
Possui um esposo adorado,
(só o de talão recheado)
Para manter o amante.

Conceitos errados merecem retificação e:

Esclarecimento

“Sou de cor porque sou preto!”
Está errado, cidadão!
No preto não existe cor
Só no branco, coração!

A evolução tecnológica atinge também o:

Escritor

Não mais frente ao papel,
Treme e sofre o escritor.
Fica agora, apavorado
Diante do monitor.

No acerto há erros e a solução é a:

Errolução

Só há evolução
No desobedecer.
Seguir às mesmas regras
Só nos faz retroceder.

“todo mal traz um bem!”
Nós temos de errar.
No erro há solução
Vamos descarrilar!

Só há acerto no erro!
Não sabe aonde ir?
No erro contumaz,
Está o evoluir.

Pense em algo chato. Pensou? Se pensou certo chegou ao:

Erudito

“Quandoque bonus dormitat homerus” (Horácio)

No seu falar enfadonho,
Com fórmulas inflexíveis,
Citação inatingíveis,
De um plagiar medonho.

Com perfeição usa a métrica.
Exímio em rima rica,
Todo o sentir sacrifica,
Numa logorréia tétrica!

Furtando a idéia alheia,
Como dela, o criador,
Busca pra si o louvor
E aos quatro ventos alardeia.

Memória prodigiosa,
Nunca o que ouviu esquece
E aos que sabem, aborrece,
Com cultura insidiosa.

Guloso nunca será:
Ele é um bom groumet!
Nunca senta pra comer:
É sempre pra degustar!

Não mija o erudito,
Pois xixi sempre ele faz;
Uma *agada, jamais,
Faz é um cocô bonito!

Entre elegias e odes
Constrói sua heresia
E a recita com euforia,
Bodejando como pode.

No conhecer profundamente,
A cultura universal,
Se transforma em um boçal,
Mui deselegantemente!

Sabe a comédia, de Dante
E a ilíada, de Homero,
Até as taras de Nero.
Tem memória de elefante!

Com hiperbibasmos prepara um alexandrino,
Gastando todas as diéreses e as sinéreses,
Seus versos se afiguram a vasos com fezes,
Impregnando o ar com seu olor “latrino”!

No seu esplender perfeito,
Para si tudo ele arresta,
Cita até o Zend Avesta,
Quando não há outro jeito.

Fiel ao vernaculismo,
Tudo o que escreve é grandeza,
Se arvora de nobreza,
Pois sofre de idiotismo.

Muitas vezes por querer,
Sempre acertar a tônica,
E solta uma bomba atômica,
Aumentando o meu sofrer!

O verso fica impecável,
Mas o sentimento voa!
Fica a poesia à toa,
Em estado deplorável.

Pra se entender o que escreve,
Só com uma enciclopédia,
É verdadeira tragédia
Garimpar na sua verve.

De erudito é pechado,
Por um renomado crítico,
No comentar analítico,
Político e bitolado.

Entre o dizer e o falar,
Existe uma sutileza:
No dizer há uma grandeza,
Nada existe no falar.

O mestre ao falar dizia,
Reza a escritura santa.
O falar é da garganta,
Só diz a sabedoria!

Eis o pateta erudito,
Que com o seu macaquear,
Não sabendo nem falar,
Só palra o que já foi dito.

Só escreve o que foi escrito,
Só pensa o que foi pensado,
Só palra o que foi falado,
Mas nem diz o que foi dito.
Mas nem diz o que foi dito.

Sssquindô. Mas nem diz o que foi dito,
Sssquindô-dô. Mas nem diz o que foi dito,
Sssquindô-dô-dô. Mas nem diz o que foi dito,
Sssquindô-dô-rô-dô-dô.
Mas nem diz o que foi dito,
Sssquindô, sssquindô, sssquindô-dô-rô-dô-dô.
Mas nem diz o que foi dito, sssquindô-dô.
Mas nem diz o que foi dito, sssquindô-dô-dô.
Mas nem diz o que foi dito, sssquindô-dô-rô-dô-dô.
Mas nem diz o que foi dito, sssquindô-sssquindô.
Mas nem diz o que foi dito sssquindô-dô-rô-dô-do.

Quanto mais procuro me informar mais tenho dúvidas na:

Evangelização

Pergunto por ser anoso
E no pecado, bem velho:
O evangelho traz miséria
Ou miséria o evangelho?

Nada dói mais que ser testemunha de uma decadência de uma instituição a ponto de merecer uma:

Elegia

Gymnasio Provincial,
De ilustres nomes e glória,
Nos faustos de tua história,
Serás sempre imortal.

“Quem mais entre nós trabalha
Mais direitos vem a ter:
N'este Gymnasio o saber
Molda esp'rito e coração.

Isto Soares de Azevedo,
Escreveu com emoção,
E com “ amor d'emulação”
Lutavas forte, sem medo.

Abriste as portas ao mundo,
Com toda tua ciência
E em ti marcou a presença,
Do nosso Pedro II.

Hoje rastejas com “graças”,
Meio a dores atrozes,
Fustigado por algozes,
Que fazem tua desgraça.

Ginásio Pernambucano,
Senti teus dias de glória,
Sou parte de tua história,
Sofro por teus desenganos! (1999)

Governos e formas de governo tentam, em vão, superar a única, a mais antiga e definitiva forma de governar que é a:

Elitrocracia

“É o brasi das caboca
Que cum sabença governa
Vinte e cinco par de birros
Cum a mufada entre as pernas “

Ó meu pobre Zé da Luz,
As mulheres de hoje em dia,
Jogaram a almofada fora,
Abriram as pernas ao dinheiro,
Qual o quê?!
E governam o mundo inteiro.

Por mais que o homem pense,
Que é maior entre todos
E somente ele manda,
Sendo ele o maioral.
Qual o quê?!
Engano fenomenal.

Criamos teocracias,
Criamos oligarquias,
Criamos plutocracias,
Criamos democracias,
Qual o quê?!
Manda a ginecocracia.

Criamos coroas e cetros,
Usamos trono e altares,
Submetemos o mundo,
Destruímos aos milhares.
Qual o quê?!
Mas mandam os lupanares.

Nos achamos invencíveis,
Somos sempre os mais capazes.
Pra dominar: imbatíveis.
Como estamos enganados,
Qual o quê?!
Nós somos é paus-mandados!

Toda a nossa fortaleza
E nosso racionalismo,
Vai tudo por água abaixo,
Pois viramos cordeirinhos,
Qual o quê?!
Por uns mimos femininos.

Rebeca, e Betsabé,
Penélope e Helena,
Pompadour, Ana Bolena,
Domitila Melo e Chica,
Qual o quê?!
Bem usaram suas ximbicas.

Sem falar nas atuais,
A Melo e a “Chupinsk”.
Adriana e Nicéia,
Que com dotes naturais
Qual o quê?!
Nos fazem imbecis totais.

Digladiamo-nos em guerras,
Esquecendo a razão,
E as mulheres nos prendendo,
Através de seus pendores:
Qual o quê?!
Entre os membros inferiores.

Não adianta discutir:
No mundo acidental,
Mulher tem supremacia:
De Lucy a Tiazinha,
Qual o quê?!
Com sua colpocracia.

Tecnologia. Tecnologia supera o romantismo e para provar temos a:

Endoscopia

Nunca me vejo por dentro,
Sempre me vejo por fora,
“Por fora bela viola;
Por dentro pão bolorento”!

Me acho limpo por fora,
Mas por dentro sou nojento,
Fedorento e gosmento,
E o que fazer agora?

Com gastrite e ulcerado,
E mais o H.Pilore,
Nada que a verdade doure,
Já estou sacramentado.

Já antes, na ressonância,
O cardíaco tum-dum,
Mudou-se em scrorloft,
Abalando a jactância.

Agora o golpe fatal,
Vindo do computador,
Prostrou por terra e enterrou
O romantismo ancestral.

No mundo das "carlinhas" e "tiazinhas" aonde o "talento" trasladou-se do cérebro para a região glútea o que importa é a:

Euginia nacional

Gestação de alto risco
Com um parto complicado
E os pais apreensivos,
Ao pediatra perguntam:
– Algum problema, doutor?

– Infelizmente, senhores,
Falta olho direito,
O nariz tem um defeito
E talvez escute mal.
Diz o teste do pezinho,
Que talvez tenha problemas,
Sendo excepcional.

Fala a mãe aliviada.
–”Bronca safada”, doutor!
Quero saber da bundinha,
Se ela é empinadinha,
Se ela é redondinha,
Se lembra a Tiazinha?

Pergunta, preocupada
A mamãe globalizada.

– Positivo, positivo!
Confirma o pediatra.

– Graças a Deus, meu querido,
Já nasceu abençoada,
Será muito desejada,
Com futuro garantido!

Na hora de "passar a régua" pra se continuar inteiro vale um:

Exorcismo

A velhice se instala
Quando só se pensa em “se”
Não como apassivador
Mas como condicional.

É um tal de “se” pra qui
Para lá e pra acolá
– Seria de outro jeito
Se eu fosse tal ou qual.

Se eu fosse um homem rico
Por certo seria pastor
Ou então algum guru
Quem sabe: governador.

Se eu fosse homem pobre
Seria muito querido
Pois teria conseguido
É claro, ser excluído.

Se eu fosse homem bom
Ajudaria a tantos
Enxugaria mil prantos
Por certo seria santo.

Se eu fosse um homem mau
Seria mui respeitado
Por todos, admirado
Um ser excepcional.

Se eu fosse intelectual
Só escreveria bonito
Resolveria conflitos
E diria: – tenho dito!

Sou apenas um vivente
Que não esqueci donde vim
Já sei para onde ir
E vos deixo todos os “ses”.

Quem sabe funcionaria se uma parábola fosse substituída por uma:

Fábula globalizada

Num banquete mui faustoso,
Caviar, maná, faisão,
Vinhos de raras safras,
Damasco, pêra, mamão.
(E por que não!)

Reunidos a discutir,
Sobre algo diferente,
As mais finas criaturas,
Todas mui inteligentes.
(Só diligentes!)

Fala o pauliciau:
– Está haveno mudança,
Nunca mai baxei o pau,
Se quebro-se o pau-de-arara,
Assim eu vô passá mau
(não é normau!)

Fala o politiqueiro:
– Não tem sobra de campanha,
Nem superfaturamento,
Findou o voto obrigatório,
Acabaram o orçamento.
(eu não aguento!)

Fala o lídri religioso:
– Nunca mais rendeu coleta,
Dízimo somente em sonho,
Ninguém vem mai pra ingreja,
O meu deus está tristonho.
(munto medonho!)

Fala o sacanocrata:
– Findou-se a burocracia,
Deram fim à papelada,
Extinguiram a propina,
Acabaram a marmelada.
(estou sem nada!)

Fala a socialite:
– Não tem chá beneficente,
Acabaram o carente,
Não se ouve falar da gente,
Não vejo mais emergente.
(estou doente!)

Fala o jurisconsulto:
– Moralizaram a lei,
Destruíram as cadeias,
Agilizaram os processos,
Hoje a justiça campeia.
(que coisa feia!)

Em meio à reunião,
Um honoris causa bradou,
Aumentando a confusão:
– Vamos prender, condenar,
Sequestrar e estuprar,
Empalar, esquartejar,
E espalhar pela nação,
Todo facínora hediondo,
Que está pervertendo o povo,
Dando-lhe educação.

O Alguém de Lá de Fora
Ouvindo a lamentação,
E sentindo-se misericordioso
Vendo que essas criaturas,
Queriam o seu perdão
Piedosamente falou:
– Agora, agora não!

Retificação sempre cabe bem mesmo que seja na:

Flor do Lácio

"Última flor do Lácio, inculta e bela"(Bilac)

Que o príncipe me perdoe,
Esta grande ousadia,
Creio que naquele tempo,
A realeza não sabia,

Que por direito outra língua,
Teria a primazia:
O Português era adulto,
Quando o Romeno nascia.

"Quandoque bônus" do Horácio,
Ainda tem serventia,
Pra mostrar que o perfeito,
Muitas vezes tresvaria.

Muitas verdades eternas,
Morrem de melancolia,
Seguindo pro ostracismo,
Pois mudam a cada dia.

Talvez por vício ou virtude eu vejo coisas onde não se vê em:

Fotografias

Vi uma foto do congresso
E me pus a matutar:
O que queria dizer
O arquiteto Oscar?

Parece uma balança?
Eu me fico a perguntar.
O que vejo nesta foto:
São dois pratos e um H.

Tem um de boca pra baixo:
Pra encobrir ou guardar?
Outro de boca pra cima:
Pra pedir ou pra esperar?

Seu Oscar, ô seu Oscar,
O que fica é o que importa:
Se for mesmo um H:
O h é letra morta!

Vi outra fotografia:
Monumento a JK.
Fiquei a olhar direito
Vi coisa de admirar!

Vi Juscelino em pé
Protegido, lá no alto.
Aquilo é uma foice,
Logo ali, bem no planalto?

Aquele cabo comprido
Que contra o céu aparece.
Eu só penso num martelo.
Se estiver errado: esquece!

Minha vista eu sei que é boa
E um aviso eu vou dar:
Se a Lelé pegar da foice
Ele tora aquele H. (1998)

Jesus sempre lembra algo penoso senão leia a:

Gemedeira com Jesus

Meu Jesus, ó meu Jesus.
Você é a minha luz
Suporta a minha cruz
Que é um purgante de mastruz
Ai,ai
Meu Jesus, ó meu Jesus.

Sua graça me conduz
E seu amor me seduz
Meu existir se reduz
A viver só de cuscuz
Ai,ai
Meu Jesus, ó meu Jesus.

Tenho fome de avestruz
Mas seu perdão me induz
Minha esperança em você pus
E estes versos compus
Ai,ai
Meu Jesus, ó meu Jesus.

Planto e colho chuchus.
Negocio com cajus.
Vivo chutando urubus
E comendo sururus
Ai,ai
Meu Jesus, ó meu Jesus.

Penso em amansar cururus
Só para comê-lo crus
Com pimenta e tatus
Pra ver se algo reluz
Ai,ai
Meu Jesus, ó meu Jesus.

Bebo tal quais os timbus.
Tiro gosto com umbus.
Espanto muitos anus,
Pretos que nem urubus
Ai,ai
Meu Jesus, ó meu Jesus.

Esta rima me reduz
A espinhentos quandus,
Miseráveis jaburus,
Detestáveis tuiuiús
Ai,ai
Meu Jesus, ó meu Jesus.

Pra tudo deve ter existido um começo e por certo que o "enfeite" mais comum também teve o seu:

Gênesis

Deus fez o homem de barro
E nem queimou só soprou.
O barro cru não tem fama:
Secando só vira pó,
Molhando só vira lama.

Fez a mulher de costela:
Um osso duro danado,
Bonito e de belo porte.
Molhado fica lisinho
Quanto mais seco mais forte.

O homem estava dormindo,
Num grande e profundo sono,
Nem viu o que aconteceu.
Quando acordou disse: – eu mando!
Disse a mulher: – mando eu.

E começaram a peleja:
Barro e osso – uma festa!
O homem o osso, queria.
Disse a mulher: – tenha calma,
Acabemos com a porfia.

Continue seu soninho,
Dou-lhe o osso que falta
E mais um briga não presta.
E enquanto ele dormia
Colocou-os em sua na testa.

Bom! Mas deixando os enfeites de lado passemos a:

Honestidade, tá doido?

(às “otoridades” do meu Brasil varonil)

“De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, A ter vergonha de ser honesto?”

Olha o Rui Barbosa, gente!
Explicando no correto
O que é fato comprovado:
Nosso Brasil varonil
Lutou e já conseguiu
Ter “lalau” pra todo lado.

Lalau da melhor estirpe
Há lalau que é pequeno
Há lalau descomunal
Há lalau na religião
(lalau do tipo “irimão”)
Há lalau que é federal.

Ser honesto hoje é crime
Ser lalau está na moda
É exemplo pra criança
Senador, padre, doutor
Motorista e cobrador
Ser lalau traz confiança.

Somente assisto o Ratinho
O meu guru é o Edir
Sou vidrado no Faustão
Gosto de banda baiana
Da “dancinha da banana”
O meu sonho é ser ladrão.

Meu esporte preferido
Em torcida organizada
Eu adoro dominó
Sempre dou uma “cheiradinha”
Uns amassos na vizinha
E negocio com “pó”.

Para ser bem respeitada
Em uma família unida
Pois hoje é o normal
Ter um gay ou sapatão
Ou um pastor “saradão”
Pra ficar tudo “legal”.

Não fundo cuca com estudo
Vou me meter na política
Pra ser lalau senador
Não quero ser diferente
Posso até ser presidente
Sem nunca ser um doutor.

Tenho amigos na polícia
Vereador e “araque”
Às vezes sou “informante”
O meu “padrinho” é o tal:
Deputado federal
E é narcotraficante.

Eu pra vencer levo jeito:
Sei tapear um otário
Sei me livrar da cadeia
Já sei assaltar idoso
No bairro já sou famoso
Vou vencer na vida, creia!

Já agito em sindicato
Sou auxiliar de pastor
Organizo rebelião
Sei “falar” com autoridade
E de muitas sou compadre
Pois “comem” na minha mão.

Roubar sempre que puder
O amigo me perdoe
Mas esta é minha crença
Autoridade que é fina
Não dispensa uma propina
O ser “esperto” compensa.

Sei que a coisa anda feia
Pegar no duro é pra burro
E pra trabalho não presto
Eu quero ser é lalau
Da esfera federal
Deus me livre ser honesto!

Para que se viva plenamente há de se ter uma:

Ideologia

O político verdadeiro,
Sempre norteia o viver,
Não pra ajudar o povo,
Mas para estar com o poder!
Há coisas realmente impossíveis de serem detidas e vejamos as:

Impossibilidades

Há três coisas neste mundo,
Que não dá pra segurar:
O fogo de morro acima,
A água de morro abaixo
E mulher quando quer dar.

Mas, somente há uma:

Inexistência

É impossível em mulher
(pois mudam mais que o vento)
Três coisas muito importantes:
Que ela seja a um só tempo:
Esposa/amiga/amante.

Infelizmente há muita verdade em este:

Intervalo

Mercúrio é deus do comércio
Também o é do ladrão.
Comerciante honesto?
Nem durante a “promoção”.

Confusão e mais confusão, mas uma das que realmente incomoda é a que confunde:

Imortal x Eterno

Existir, sempre existir,
É prova de eternidade.
Não ter início nem fim:
É a única verdade!

A condição de imortal
É nunca provar da morte;
Ter início sem ter fim,
Muda o rumo, muda o norte.

Não adianta a sinonímia:
Imortal não é eterno.
Acho que é imoral,
(a não ser lá no inferno).

Os pobres de coração,
Buscam a eternidade,
Mas quem já teve um começo,
Aumentam a vaidade.

Retifique-se o conceito,
Pois é obvia verdade:
O que já provou da morte
Não tem a eternidade.

Há desejos estranhos, mas estranho mesmo é desejar a:

Imortalidade

Existir pra todo o sempre,
Sem ter de provar da morte
Tendo a imortalidade,
Tal mal quem desejaria?
Há de ser inconcebível
E é tétrico, é horrível,
Só um louco quereria!

Tudo que existe é efêmero,
Não há imortalidade,
Só mania de grandeza!
O que existe na verdade:
É que toda imortalidade
(por não se doar à morte)
É uma forma de avareza

Quem quiser que diga o contrário, mas já senti na pele esta:

Judi(a)cão

Judia com Cristão judia
E Judia com Judeu.
Mas, ambos, sempre judiam,
Quem não aceitar seu deus.

Não conheço, logo não existe! Ou não? Se sim saboreiem este:

Jesus sinestésico

Quem verseja e se preza
Deve ser bem sabedor
Que a vogal tem sentimento
Aroma, sabor e cor
Pois é a base da escrita
Faz a palavra bonita
Dando-lhe ódio ou amor.

O “a” é uma vogal clara
Dá a idéia de expansão
Seu instrumento é a harpa
Alegra o coração.
É uma vogal bonita
Parece um laço de fita
Prendendo a amplidão.

O “ê” já é vogal neutra
Ela nem fede nem cheira
Agrada ou desagrada
Vive sem eira nem beira.
Violão é seu instrumento
Causa alegria ou tormento
Vão a palácio ou à feira.

O “i” é o azul infinito
A obra do Criador
A vogal do menestrel
A vogal do sonhador.
Seu instrumento é o violino
Som celestial, divino
A eterna vogal do amor

O “ô” a vogal dourada
E também multicolor
É a vogal do astro-rei
E também do beija-flor.
Metais são seus instrumentos
Anúncios, endeusamentos
Vitórias e esplendor.

O “u”é a vogal negra
Do mistério, do temor
Da imperfeição, da vileza
Do ódio, do desamor.
Madeira é seu instrumento
Tristeza e sofrimento
Da negritude, da dor.

Jesus, Jesus sinestésico
Da tônica em “u”, Jesus
Jesus do cravo, do espinho
Do seu calvário, da cruz.
Jesus, o abandonado,
No resgate do pecado:
Jesus, Jesus, só Jesus.

Jesus, Jesus, o deus triste
Jesus, o deus flagelado
Jesus preso à coluna
Jesus, o chicoteado
Coroado com espinhos
Jesus, o crucificado.

Jesus morto e sepultado.
Jesus, o ressuscitado?
Jesus, Jesus, salvador?
Jesus, o glorificado?
Jesus, o filho do pai?
Jesus, que levou meus “ais”?
Jesus, o filho amado?

Jesus, Jesus sinestésico
Que confunde os sentidos.
Jesus, a mercadoria
Nas seitas dos “renascidos”
Jesus, lucros financeiros
Valendo trinta dinheiros
Nessa corja de bandidos.

Por que o “u” é tristeza?
Por que o negro é a dor?
Por que “Jesus” soa triste
Se ele é o salvador?
Acho que há “esperteza”
Pois pra mim negro é pureza
Alegria, paz e amor


Porque o negro é a treva,
Meta final da criação.
Este “Jesus sinestésico”
Nos aplica esta lição:
A cor estando presente
Faz o bem estar ausente
Só na treva há salvação.

Reveja os seus valores
Homem de boa vontade
O certo está errado
Muita mentira é verdade
Alguém está lhe enganando
Negando, negaceando
O dele chega mais tarde.

Justiça de Cardeiro

No sertão quando amanhece
Depois do galo cantar
E do morcego enfurnar
Da passarada voar
Da juruti arrulhar
Do cantar do rouxinol.

Logo céu fica bem claro
Pois mata a noite o Sol
E com ela o Luar.

No entanto quando anoitece
E o galo se empoleirar
E a passarada calar
E o morcego voar
E a juruti suspirar.

Aí sim é que se ver
Todo o céu avermelhar
E pra logo o Sol morrer
E sua agonia acabar
O cardeiro crava os espinhos
E o Sol morre de mansinho
Pra renascer o Luar! (Buique -1965)

Lamentos e mais lamentos sobre nossas matas com a:

Ladainha Brasileira

Amazonense, quede a floresta daqui?
Madeireiro derrubou.
E pra que, amazonense?
Para exportar a madeira.
E o lucro, o dinheiro?
Na Suíça com o banqueiro!

Nordestino, quede a mata daqui?
Usineiro derrubou.
E para que, nordestino?
Plantar cana, sim senhor.
E o lucro, o dinheiro?
Na Suíça com o banqueiro!

Baiano, quede a mata daqui?
Cacaulista desbastou.
E para que, bom baiano?
Para plantar o cacau.
E o lucro, o dinheiro?
Na Suíça com o banqueiro!

Pantaneiro, quede a floresta daqui?
Fazendeiro derrubou.
E para que, pantaneiro?
Fazer pasto, sim senhor.
E o lucro, o dinheiro?
Na suíça com o banqueiro!

Planaltino, quede o cerrado daqui?
Mega-agricultor levou.
E para que, planaltino?
Somente pra plantar soja.
E o lucro, o dinheiro?
Na Suíça com o banqueiro!

Gaúcho, quede o pampa daqui?
O criador acabou
E para que, meu bom gaúcho?
Criar gado e plantar trigo.
E o lucro, o dinheiro?
Na Suíça com o banqueiro!

– Miseráveis, quede a terra cultivável daqui?
– MST invadiu.
– E para que, miserável?
– Somente pra invadir.

– Não queria para exportar madeira?
– Não, senhor!
– Não queria para plantar cana?
– Não, senhor!
– E nem para plantar o cacau?
– Não, senhor!
– Nem tampouco fazer pasto?
– Não, senhor
– Nem queria plantar soja?
– Não, senhor!
– Nem queria criar gado?
– Não, senhor!
– Nem queria plantar trigo?
– Não, senhor!
– E o lucro, o dinheiro,
Na Suíça com o banqueiro?
– Não, senhor!
Não há lucro, nem dinheiro:
Só politicagem barata, Só miséria, só miséria,
Só miséria, só miséria,
Só miséria, só miséria...

– Ainda bem! Ainda bem!
Vou levá-los pro meu reino.

– Todos nós, os miseráveis?
– Não senhores, ora!

– Mas, Senhor!

– Nem mas nem meio mas:
Pensam que o céu é Brasil
Que só tem miséria?

Para que se possa evoluir há de se de usar o:

Livre arbítrio

“Tudo me é permitido,
Mas nem tudo me convém”
Como é que vou saber,
O que é que me convém?

Sem experimentar, meu bem!
Se for bom fica comigo,
Qual o quê?!
Se não for dou pra alguém!

Terrível, terrível ter de conviver com esta nova:

Linguagem

No meu tempo de menino,
As menininhas falavam
Em linguagem diferente,
E que muito me agradava!

P eu p a p mo p vo p cê!

É uma saudade calmante,
Que gosto sempre de ter,
Pois o código eu sabia,
Nessa linguagem do P.

Hoje anoso e alquebrado,
Ouço linguagem irritante,
Que chega aos meus ouvidos,
Através de alto-falantes!

Meu aliluia irimão, aliluia nóis aliluia vai grória lê aliluia a aliluia bríbia aliluia. Grória aliluia a grória jisus aliluia!

Moro perto de excluídos
E os ouço constantemente,
Mas não entendo o que falam
Nessa linguagem de crente. (Piedade – 1988)

O tempo transforma tudo até o casamento e apenas resta uma:

Lembrança

Com o tempo a mulher é casada,
Tudo o que é para o marido,
Ela esquece de verdade
E ele fica sendo um pária.
Só de uma coisa ela lembra:
Qual o quê?!
De sua conta bancária!

O concreto impõe ao abstrato um:

Limite

“É sempre a imaginação
Faculdade ilimitada!”
Esta afirmação errada,
Guardava no coração.

Descobri o sim do não,
Desta assertiva dada,
Que por mim, foi pesquisada,
Aplicando a razão.

Desta velha informação,
Uma coisa eu rebato,
Dando outra explicação:
O limite é o fato.

Às vezes enganados achamos que um são dois como é o caso da:

Mãe-da-Lua

Sou a Mãe-da-Lua!
Canta todas às seis horas
Mata adentro o Urutau
Anunciando o ângelus
Em toada angelical.

Sou a Mãe-da-Lua!
Anuncio a Ave-Maria
Nas serranias sem fim
Chamando para rezar
Lá longe pelos confins.

Sou a Mãe-da-Lua!
Seu cantar só traz o bem
Para o feliz a certeza
De dias sempre melhores
Com alegria e riqueza.

Sou o Urutau!
Seu cantar é mau agouro
Para o infeliz a certeza
De vida jogada fora
Só com castigo e tristeza

Sou a Mãe-da-Lua!
Sou também o Urutau!
Meu canto é para lembrar
Que as noites enluaradas
Foram feitas pra sonhar.

Há o real e há o sonho, logo há:

Maria... Mariazinha

Maria,
Cabocla do meu sertão
Que tem a mão calejada
De trabalhar com enxada
E de pilar no pilão.

Mariazinha,
Florzinha do meu sertão
Que tem o andar bem faceiro

E pisa bem de mansinho
Só pra não ferir o chão.

Maria,
Cabocla do meu sertão
Que é mulher bem valente
Pode acompanhar contente
O bando de Lampião.

Mariazinha,
Motivo lá do sertão
Que faz caboclo sofrer
E de mandinga morrer
Mandinga de coração.

Maria,
A força do meu sertão
Que sabe atirar com rifle
Que na luta não desiste
E nem teme assombração.

Mariazinha,
O tema lá do sertão
Que em noite enluarada
Faz toda a rapaziada
Tirar moda ao violão.

Maria/Mariazinha,
Dona do meu coração
Que eu sem medo diria:
Em não havendo marias
Não haveria o sertão! (1965)

Há certas transformações que pioram o original como é o caso to órgão retratado na:

Metamorfose

Certas mulheres que pensam,
(se belas e exuberantes)
Há mudança importantes,
Pois os seus pequenos cérebro,
Pelo uso abundante,
Aumentam e se transformam,
Qual o quê?!
Em ânus de elefante.

Algumas teorias podem ser provadas como é o caso da:

Metempsicose

Certas mulheres existem
Só para confirmação,
Pois sei que elas acreditam,
Que um dia serão bonitas,
Qual o quê?!
Em outra reencarnação.

Realmente deve-se ter cuidado com o que fala a:

Minha cisma

Moço sou do norte
Sou macho sou forte
Sou carne de cobra
Amante da morte.

Sou gavião-carcará
Sou onça de serrote
Só pego para matar
Bebo a água quebro o pote.

Muitas vidas já findaram
Na ponta do meu punhal
Sou a praga do senhor
Só vivo fazendo o mal.

Eu não tenho medo de nada
Quase que eu não tenho sobroço
Sangue bebo como coalhada
Dispenso a carne e como o osso.

No constante planto sempre o mal
Nunca tenho pena de ninguém
Me comparo com um animal
Nunca me preocupo com o bem.

Porém fiquem sabendo de uma coisa
Saibam todos minha cisma qual é:
Eu fico sempre tremendo de medo
Quando vejo o olhar de uma mulher. (1964)

Vários fatores influem na:

Marginalidade

Para existir marginal
Depende de três fatores,
Todos inerentes à vida
E todos exteriores.

Em primeiro o alimento,
Para o corpo manter forte,
Comida e bebida boas,
Forjam um ser de bom porte.

Em segundo o espaço,
Para manter livre a alma,
Um espaço apropriado,
Cria uma entidade calma.

Em terceiro a diversão
Para o corpo ou para a mente,
Uma diversão sadia,
Faz uma criatura contente.

Estes três fatores juntos
Criam um ser natural,
Uma entidade livre,
Uma criatura total.

Esta é uma trindade
Bem melhor que a santíssima,
Pois somente através dela,
A vida é uma delícia.

A ausência de um dos seus membros,
Sempre e sempre causa mal,
Pois cria um deficiente,
Sempre à margem: marginal,

Somente existe um mediador entre Deus e os homens: Jesus Cristo homem. Será? Prestem a atenção a este "mediador"

Mediação

Aos “Santa Rosa”

Recebe o recado e o retrato,
Quem ele é e o endereço,
Decide, confirma o trato,
Discute, acerta o preço.

Começa estudos acurados,
Planeja a operação,
Hora, detalhes, cuidados,
Momento próprio pra ação.

Eis a hora almejada,
De cumprir o que tratou
E já pronto na emboscada:
Aponta, mira com calma.
Para a terra deixa o corpo,
O além que recebe a alma! (1981)

Será conveniência ou santificação ou falsidade esta:

Memória curta?

Diz a mãe aperreada
Pra sua amiga também mãe:
– “Disseram palavras feias
Pra meu querido “bebê”
E não sei que vou fazer.

Meu “bebê” adolescente
Foi criada com carrinho
Com esmero, bem certinha
Separada dos “mauzinhos”
Seguindo um bom caminho”.

Mas a mãe já esqueceu
Que já foi também “bebê”
E criada igualzinha
Por uma mãe igualzinha
Com igualzinho querer.

Quero ver como vai ser
Quando ela descobrir
(igual sua mãe descobriu)
Que seu querido “bebê”
Anda fazendo bebê.

Saudades! Apenas saudades de um papagaio chamado:

Mimo

Mimo era um psitacídio
Alegre e palrador
Quando eu passava assobiava
Depois chamava: beô.
Ai, ai
Sinto em meu peito uma dor.

“Curucupaco meu louro
Vale mais que um tesouro”
Falava e não palrava
Feliz da vida e contente.
Ai, ai
Não era ave era gente!

Sempre lhe dava um graveto
Quando falava meu louro
E o triturava cantando
Com o seu bico de ouro.
Ai, ai
Realmente era um tesouro!

Fazia uma algazarra
Quando ia tomar banho
De mangueira em chuveirinho
Quando o dia estava quente.
Ai, ai
Como a dor machuca a gente!

Em vinte e cinco de março
Deste ano de dois mil
Por uma fatalidade
Foi deste mundo arrancado.
Ai, ai
Por dentes dilacerado.

Enterrei o seu corpinho.
Num lugar que só eu sei
Como última homenagem
Sua alminha encomendei.
Ai, ai
Eu que não choro, chorei!

Mimo você é saudade
(entre tantas que já tenho)
Mimosa e especial.
Só posso lhe prometer:
Ai, ai
Nunca vou lhe esquecer! (2000)

Indiscutivelmente esta é toda:

Minha riqueza

Tudo tenho muito pouco
Sô muito rico de nada
Entretanto sou muito rico:
Sou rico de filharada!

Eu tenho umas anjinhas
Duas pra ser verdadeiro
Que me deixam muito rico
Mas não rico de dinheiro.

As duas são tão bonitas
Que se comparando mal
São duas santa bendita:
Todas duas num altar.

Anna Olýmpia é a primeira
Que nasceu do meu amor
Tem o jeito a maneira
Dum anjinho do Senhor.

Anna Regina é sapeca
E é também a caçula
O anjinho é uma boneca
Que no colo a gente adula.

São essas as minha riqueza
Na pobreza em que vivo
Muito rico na certeza
De ter dois anjos comigo! (1968)

Nos tempos atuais com relação a estrutura familiar, está havendo "avanços" significativos em um:

Modernismo moderníssimo

Conversavam velhos pais,
Que não se viam há anos,
Sobre a modernidade
E sobre seus desenganos.

– A Rosinha, endoidou,
Só procura homem casado
E de sete em sete dias,
É um novo namorado.

– Tu és feliz, meu amigo,
Criatura afortunada,
Pois a Joana, também:
Só que é nova namorada.

– Não se lastimem, amigos,
Vocês são abençoados:
O Zoroastro, meu filho,
Só namora bem-dotado
Travesti e homem casado.

Há atualmente uma leva de péssimos desenhos animados que somente induzem a violência e por mim denominados de:

Monsagnus

A Satoshi Tajiri

Os lobos acordeirados,
Lindos monstrinhos-de-bolso,
Ídolos da criançada,
(plugada e videogeimada)
Que formarão o futuro.

Os amáveis/violentos,
Que fascinam a garotada
E sutilmente ensinam
(violência subliminar)
A arte de guerrear.

Pedagoguinhos-de-bolso
Que com ataques letais,
Conduzem a criançada,
(até os não predispostos)
A violentos ideais.

Capturar, adestrar;
Fortalecer, atacar.
Ser superior a todos
(com um gestual horrível)
E sendo sempre imbatíveis.

Famigerados inventores,
Destes "games" imorais,
Que preparam no agora
Os soldados diabólicos,
Dos amanhãs infernais.

Preparem-se e se cuidem,
Ó mentes fenomenais,
Pois desejo que seus filhos,
Adestrados angelicais,
Sejam excelentes discípulos
E destruam vocês os pais! (1996)

Vivemos em um mundo que se subdivide em inúmeros:

Mundos

Dentro do terceiro mundo
(que é imundo!)
Existe um primeiro mundo
(mais imundo!)

Um mundo muito ordeiro
(trambiqueiro!)
Onde só vale dinheiro
(verdadeiro!)

Mundo que só termina
(na propina!)

Onde o anão domina
(mas, que mina!)

Mundo que o certo é falso
(cada falso!)
Onde a honra tem talco
(cadafalso.)

Com os "avanços de relacionamento" as jovens "ficantes" de nosso Brasil varonil apenas querem um:

Namoro moderníssimo

– Amor, me dê um beijinho!
(pediu-lha impetuoso)
– Não! Procure conter-se,
Pois é pecado mortal,
Só depois do matrimônio!
(retrucou-lhe mui pudica)

Frustrado, ameaça o amado:
(fogoso como um corcel)
– Vou tirar a camisinha,
Vamos sair do motel!

Há imagens poéticas apenas poéticas como é o caso deste:

Navio

Só um perfeito poeta,
É quem pode comparar
Canaviais ondulantes,
Com sua cor esmeralda,
Às ondas calmas do mar.

Vê, com os olhos da poesia,
Sentindo todo o prazer!
As estradas, como rios.
Usinas, como navios.
O que ninguém nunca vê!

Mas se o canavial é mar,
E as estradas os rios,
Nós podemos afirmar,
Sem termos medo de errar:
O mar corre é pro navio. (1970)

Por ser a profissão mais antiga do gênero humano merece nosso respeito e a ela dediquei uma:

Ode à prostituta

Respeito à prostituta,
Que sempre é injustiçada,
Da sociedade alijada,
Por ser filha de Caim,
Primeiro injustiçado,
Por não ter Deus agrado.
*Mesmo do melhor que possuía,
Tendo contrito lhe dado*.

Respeito à prostituta,
Que no rito de passagem
Dos mistérios do viver,
Inicia o adolescente,
Pois sincera e confidente,
Somente difunde amor.
*Livrando de muita dor
Quem a procura carente*

Respeito à prostituta,
Que pela venda do corpo
Dá o prazer ilegal,
Fazendo sexo “animal”,
Sublime e sem igual,
Diferente do da esposa,
Imaculada e legal.
*Manchar-lhe a honra quem ousa?*

Respeito à prostituta,
Que sempre é verdadeira,
Que não comete adultério,
Que não precisa mentir,
Que não precisa enganar,
Que não precisa trair.
* Como a esposa perfeita
Quem ousa questionar!*

Respeito à prostituta,
Que dá ao sexo um preço,
Que a profissão respeita,
Que ao cliente dá bom trato,
Que ganha o seu sustento
Com o suor do seu corpo.
* Não como a esposa perfeita
Que o faz por um contrato*.

Respeito à prostituta,
Que tem o nome de amante,
Que dá plena liberdade,
Que não procura, espera,
Que só usa da verdade.
* Não como a perfeita esposa,
Astuta como raposa,
Engana e adultera*.

Respeito à prostituta,
Delícias do coração,
Que desconhece a razão,
Que ignora a moral,
Lasciva e sensual,
Será sempre desejada,
Agindo com o coração
Amando e sendo amada.

De tanto me aproximar dos "racionais" e procurar entendê-los dediquei uma:

Ode ao irracional

Amor ao irracional!
Sublime e visceral,
Total e incondicional,
Por não saber do saber,
Que existe ou bem ou mal.

Amor ao irracional!
Supra divino existir
Somente para viver,
E não saber do saber,
Que é um amargurado,
Ou que haverá final.

Amor ao irracional
Que sem noção do preservar
É grande preservador,
Sem noção do proteger
É um grande protetor,
Sem noção do defender
É um grande defensor,
Não vive para morrer
Sobrevive a rigor.
Amor ao irracional
Que nem odeia nem ama,
Que não é fiel e nem trai,
Que não elogia ou destrata,
Que não destrata ou contrata,
Que não tortura só mata.

Amor ao irracional,
Pois não sabendo que existe,
Passa a existir plenamente,
De bem melhor semelhança,
Criado à própria criação,
Sem teogonia ou moral
É o objetivo final
De toda evolução.

Sentimento avassalador e marcante que nunca esquecemos é a:

Paixão

Paixão é coisa ligeira,
Que nos faz uma maldade:
Deixa no peito a saudade,
Que perdura a vida inteira!

Eis aí, meus queridos e fieis maridos a verdadeira:

Panacéia

Pra esposa com enxaqueca,
Há um remédio ideal:
Dê pra ela, ao deitar
(bem antes dos entretantos)
Azulzinhas de Real!

Feliz aquele que dispôs de tempo para ter um:

Pai

A Manoel de Medeiros Accioly

O meu pai não teve tempo,
Para fazer-me maldades.
Verdade.

Hercúleo, descomunal,
Ombros largos peito forte.
Que porte!

Uma escada, um cuscuz,
Um flamboyant, um jardim.
Jasmim?

Pontos vagos na memória,
Lembranças, boas lembranças.
Criança!

Um sorriso enigmático,
Braços me erguendo ao céu.
Briareu.

Um abraço apertado
E um beijo prolongado.
Finados?

Saiu cedo para o mar,
Voltou pra dentro de mim.
Enfim.

Brincadeiras com palavras e idéias geraram estes:

Paralelos

Estando eu a pensar
(como doía)
Nos problemas da vida
(aquele calo)
Coisas do coração
(de estimação)
Por ser sentimental
(porque chovia)
Pois a mulher querida
(estava fria)
Por mim idolatrada
(aquela noite)
Só me causava dor
(e o magoara)
E a dor sempre faz mal no amor como no calo.

Nada de estrangeirismos! Xenofobia. O que importa é o nosso:

Patriotismo

Dizer que acaba em pizza
Todas as nossas CPIs,
É grande patriotada,
Pois nossos parlamentares,
São muito nacionalistas
E a soberania amada
Qual o quê?!
Faz que acabe em feijoada!

Pensando bem se leva por imposição social cada:

Pedrada

Petrus, petra, Pedro,
Não tens rima consoante,
Muito mal tens a toante,
Ó pedra deselegante.

Sobre vós veio a igreja
E com a igreja o papa
E com o papa o papado
E eu logo fui papado.

Papado pelo pecado,
Pecado pouco perdoado,
Por professor proletário,
Por parco pecuniário.

Pedro, Pedro, és pedrada
Atirada sobre mim.
Excomungado estou:
Nada, nada me restou.

Pobre permanecerei,
Mas nunca pobre de espírito,
Logo não tenho a bonança
Das mil bem-aventuranças.

Não quero os trinta dinheiros
Que os santos me oferecem,
Pois trazem com altivez:
Seiscentos e sessenta e seis.

Anoso, não velho, percebo no semblante dos que estão"mais pra lá do que pra cá" um constante sinal de:

Pesadelo

Ninguém me fale o contrário,
Pois é nisso que acredito:
O velho somente sonha,
É com enterro bonito!

Coisinha desagradável é este tal de:

Pênis de Peyronie

Pau torto fora da mata.
Pontaria incerta!
Duro por natureza.
Desnatureza!

Privada molhada.
Mulher mal-amada,
Zomba às gargalhadas.
Desnaturada!

– Sonhando falou rosa?
Fique tranquila: é flor!
Coitada da finada!
Que horror! (1990)

Nossa! A nossa vida está imersa em uma nuvem de:


“pois tu és pó e ao pó tornarás”

– Sabe que há razão sobre sermos pó.
– Por quê, amigo? Acaso “cheiras”?
– Não, ora!
– E por quê?

– Porque lá em casa é:
Café em pó;
Açúcar em pó;
Canela em pó;
Leite em pó;
Sal em pó;
Tempero em pó;
Açafrão em pó;
Cominho em pó;
Tomilho em pó;
Coentro em pó;
Orégano em pó;
– Pára de tanto pó, pô!

Saco! Por onde se anda só se dá de cara com este:

Pó (êta!)

Conheço poetas.
E quanto mais os conheço,
Menos me esqueço,
Que somos feitos de pó.

Não o pó da coca,
O que nos traz mil delícias,
Sonhos e carícias,
Porém o pó do erudito.

Pozinho irritante
Espalhado pelo vento,
Sujo,
Fedorento,
E micropulverizado.
Pó que inalado dá pulmotuberculose,
Osteoporose e nos afeta os testículos.

Perdem-se no ritmo,
Fazem do versar um rito feio,
Esquisito,
Qual violino de mosquito.

Pó! (êta) erudito!
Isso pega por osmose,
Retro, simbiose!
Só quero no pó pular.

Literalmente, esse tipo de mulher adora esta:

Posição

Mulher que só quer dinheiro,
"Mulher-dama" ela vira:
Viverá sempre por baixo,
Qual o quê?!
Tendo sempre alguém por cima.

Animal realmente sagrado, pois quem o estima entende o:

Perde-ganha

Pra quem vê boi com ganância
Só pensando em ter bom lucro
Tudo transforma em dinheiro
Pra gastar tudo depois
Pra esse tipo de gente
Se perde o berro do boi.

Mas quem vê boi com saudade
Dos seus tempos de menino
Dos tempos bons que findaram
Eu digo de coração
Só esse tipo de gente
Do boi perde o berro não.

Quem só pensa em riqueza
Para ter cada vez mais
Vira logo um rei do gado
Nem menino ele foi
Pra esse tipo de gente
Se perde o berro do boi.

Aquele que quando velho
Sabe que a vida se vai
Dá o valor que merece
Guarda da vida a ilusão
Só esse tipo de gente
Do boi perde o berro não.

Quem não pastoreia gado
Pelos pastos e invernadas
Não pega amor a eles
Para ter quem os abóie
Não sabe nada da vida
Pra esse tipo de gente
Perde-se o berro do boi.

Som mavioso e melancólico é se ouvir ao longe o:

Tengo-lengo-tengo-lengo-tengo

Quem vai pelas trilhas do sertão
Sendo nas quebradas ou chapadão
Sempre há de ouvir o coração
Pois sempre ouvirá o som celeste
O som que embala o Nordeste
Fazendo da vida um só dengo
Tengo-lengo-tengo-lengo-tengo
Tengo-lengo-tengo-lengo-tengo

O gado pastando sossegado
Sem ter as fronteiras do cercado
Livre sem estar agrilhoado
Dá todo o poder da liberdade
A quem sempre tem a vaidade
De fazer da vida um alento
Tengo-lengo-tengo-lengo-tengo
Tengo-lengo-tengo-lengo-tengo

Das fontes que brotam cristalinas
Há todas as músicas divinas
São tal quais celestes cavatinas
Aonde o gado vem sede matar
Onde se ouve anjos a rezar
Espantando todo o sofrimento
Tengo-lengo-tengo-lengo-tengo
Tengo-lengo-tengo-lengo-tengo

Estudam-se tanto os parasitas, mas não através de esta:

Parasitologia

No ninho da Cotovia
O porvir era tristonho,
Por não existir mais sonho:
Um ovo de Cuco havia!

Bastantes sonhos havia,
No meu berço, ao nascer,
Não puderam perceber:
Eram de luz – não os viam.

Levando-se em conta a fome e a miséria muda-se o conceito de:

Prioridade

– Ei, moço!
Quede pombinha da paz
Que eu lhe dei pra guardar?
Pergunta o pacifista
Ao esfomeado rapaz.

Que diabo de pomba e paz?
E isto existe por aqui?
Peguei a bicha de jeito,
Matei, assei e – comi.

Raízes muito mais profundas existem e que produzem a:

Pedofilia

A John Money

Não quero mulher/criança
E nem a desejo, tampouco
Gosto de mulher/adulto
Ilimitada e louca

Gostar de mulher/criança
Nem mesmo na fantasia.
Se não for mulher/adulto
É pura pedofilia


"O tempore, o mores!" Como esta mudada a atual:

Pedagogia feminina

De outra civilização,
Muito não posso falar,
Pois eu sou do Ocidente
E por cá é diferente
Do povo oriental.

O que mais me causa espécie,
E a criação das mulheres,
Pois está tudo mudado,
Mexido e revirado,
E eu vou ser muito breve!

Naqueles tempos passados,
Sempre ouvi dos meus pais:
Lugar de homem é na rua!
Era a verdade crua
Do meu tempo de rapaz.

Quando uma mãe reclamava,
De um namorado maldoso,
Ouvia logo a emenda:
– Sua cabritinha prenda,
Pois meu bodinho está solto!

Se esconde hoje, o rapaz,
Dessas meninas marotas,
Pois a mãe diz a seu pai:
– Prenda em casa o seu bodinho,
Minha cabritinha está solta!

Do orvalho matutino e o astro rei recebemos este:

Presente

O raio de sol e a brisa
Presentearam o orvalho
Em uma aurora radiante.
As suas gotas pingentes
Eles logo as transformaram
Em cintilantes brilhantes

E as gotículas presas
Em frágeis teias de aranha
Naquele instante querido,
Encadearam uma a uma
E transformaram em colares
Todos multicoloridos.

Definitivamente não gosto do urbano e nele não sinto:

Prazeres

Prazeres, meus desprazeres,
Será grande a tua fama!
Eu dirigindo um “buggy”,
Ultrapassou-me um “carrão”
(de um Ferraz ou Novais,
Matriculado em Salgueiro)
E deu-me um banho de lama!

Já boa(tão) por aí
Que as coisas vão melhorar,
Coisa difícil (eu acho),
Do jeito que a coisa vai
Isso aqui vai se acabar!

O comércio de Prazeres
Tem tudo que pobre gosta:

Camelô a dar com pau,
Vendendo e dando amostra.

Tem vendedor de sapato,
Que sempre persegue a gente.

Barraca de papudinho,
Com tudo que é aguardente.

Crente pregando o evangelho,
Enchendo o saco da gente.

Barraca de CD brega
Com os dois rossi cantando,
E o gospel evangélico,
Sempre nos azucrinando.

Tem com beiro atrevido,
(ô legal, vai ou num vai?)
Grita ao nosso pé do ouvido.

Tem fila de INPS,
Pra se morrer melhorado.

Tem comício de político,
Prometendo até o céu.

Um fiscal em cada esquina,
Esbanjando “otoridade”
E o que fazem, na verdade?
Trocam multa por propina!

Guarda de trânsito "querendo",
Pivete pedindo esmola,
Flanelinha ameaçando.

Carro com alto-falante,
Aos berros, anunciando.

Banca de bicho pra aposta,
Em meio a outros prazeres!

Calçadas? Só as que sobram
Dos entulhos e invasão
Dos muros dos espigões
Onde habita o barão,
E têm cada um buraco
Que cabe um caminhão.

Prazeres, meus desprazeres,
Prazeres que o povo gosta,
E para a chave de ouro:
Aquele cherim de bosta! (1986)

Na "Capital do Forro" vi e ouvi maravilhas mas encantei-me com as:

Quadrilhas

(sotaque "politiquês" – ritmo nordestino)

Saí para olhar quadrilhas,
Quadrilhas de são João.
Puxa que decepção!

A primeira era estranha,
Mas fazia sensação.
Somente de sapatão!

Vi outra mui florida,
Todo mundo era rei.
Mas nunca vi tanto gay!

Outra vi só de criança,
Todinha bem arrumada.
Muito desorganizada!

A outra uma tristeza,
Somente de excluídos.
Mas como tinha bandido!

Tinha uma diferente,
Formada só por sem-terras.
Parecia uma guerra!

Vi uma dos sindicatos,
Barulhenta e muito breve.
Fizeram logo uma greve!

Uma era só de ministros,
De todo deus verdadeiro.
Fiquei sem o meu dinheiro!

Uma era mais ou menos,
Só tinha policial.
Mas me quebraram no pau!

Na frente de uma cadeia,
Vi uma de advogados.
Quase que sou processado!

Uma de socialite,
Emergente e seminua.
Nunca vi tanta perua!

Vi uma preponderante,
Nela só havia barão.
Nunca vi tanto ladrão!

Vi uma de deputados,
Com o povão seguindo em frente.
Mas mentiam feito gente!

Lá no cantinho da rua,
Vi uma só de petista.
Eu nunca vi tanto artista!

De ministros do supremo,
Vi uma e fiquei pasmado.
Quase que fui deportado!

Uma de vereadores,
Foi quase do meu agrado.
Ô povinho descarado!

Vi uma de professores,
Todos esmolambados.
Eu fiquei penalizado!

Uma de mulher direita,
Olhando pra todo lado.
Ô povo dissimulado!

Já estava desanimado,
Vi uma fenomenal.
Levantou o meu moral!
Quanta organização,
Orçamento sem igual.
(donde, onde ou aonde?)
No congresso nacional!

Escolha. Coisa difícil de fazer e complica se é pra se responder:

Qual o mal menor?

Escolher entre dois “males”
Não é tarefa pra um só
Mesmo se sabendo que
Há o menor e o maior.

Matar um pra salvar mil?
Sei que matar é errado
Mas se tiver de escolher
Mato e serei perdoado.

Mas há “mal” que é complicado
Pois bem pra uns pode ser
E você fica sozinho
Pra julgar e escolher

Dizem por aí afora
Que o Brasil sendo um só:
É a Pátria do Evangelho
E o País do Futebol.

É também do Carnaval
Do “lalau” e do “anão”
Pra não fazer tal Pilatos
Eu não vou lavar as mãos.

Pra que o evangelho domine
Há de haver muito “fiel”
Há de haver muita miséria
Há de haver muito bordel

Há de haver muita favela
Há de haver a ignorância
Há de haver muito sofrer
Há de haver a mendicância

Há de haver outros “insumos”
Que alimentam o evangelho
Há de haver o pecado
Que é maior no mais velho

Pra que o futebol domine
Há de haver bom jogador
Há de haver quem drible bem
Há de haver torcedor

Pivete fora das ruas
Reunidos em campinhos
Deixam de lado as drogas
Escolhem o bom caminho

Há de haver sonhador
Há de haver emoção
Há de haver alegria
Há de haver a paixão

Ficaria eu mais feliz
Alegrando o coração
Que o Brasil fosse mesmo
A pátria da educação.

Mas pra ter de escolher
Entre o “mal” que é menor
Mando o evangelho pro inferno
E fico com o futebol.

Quando vemos nosso reflexo e que podemos discernir entre:

Real x virtual

Chegando frente ao espelho,
Viu abismado um retrato,
(jurou que era o do “Doriam.”)

Rejeitou aquela imagem decadente,
Velha, magra, careca, meio demente.
(e faltavam muitos dentes)

Não podia acreditar
(apelou como Munrat
Por sua verdadeira forma)
Por sua forma real,
Hercúlea, descomunal.

E em seu sonho ideal,
O milagre aconteceu.
(será transfiguração?)

No espelho apareceu,
Jovem, forte e sem igual,
O seu verdadeiro eu:
Sua imagem virtual.

Podem experimentar que é de fé esta:

Receita

Para a constipação,
Há receita milagrosa:
Batata doce e mamão;
Bosta macia e cheirosa!

Uma coisa inventada por homens maus e "espertos" criadores de deuses maus e únicos para dizer que somos maus e merecemos ser dizimados. (Só não serão dizimados os dizimados acima de um salário mínimo celestial [SMC]). Estes homens maus em nome dos seus deuses maus criados a sua imagem conforme seus interesses financeiros pintam e bordam e atualmente o que mais se vê aqui pelo Brasil varonil é:

Religião

Religião, meu irmão
Rimava com salvação
E com absolvição
Rimava até com perdão
Se não acredita em mim
É porque está tudo ruim
É tempo de perdição.

A indústria do sagrado
Se espalha pra todo lado
Tem seita a dar com pau
Para o bem e para o mal
Tem seita que estrompa e arromba
Tem seita pra gente-bomba
Tem seita pra carnaval.

Dela hoje tenho medo
Rima com Edir Macedo
E vive por outros ares
Com o RR soares
Só de escutar me dá-me tossi
Com o padre Marcelo Rossi
Ela é os meus penares.

Rima com trampolineiro
Pra levar o meu dinheiro
Milagre a torto e a direito
Se eu votar no prefeito
Também no vereador
Candidatos do “senhor”
Para em tudo dar jeito.

“Homem de deus” às canadas
Só vivem de presepadas
“Tropeiros” de fiéis burros
Vivem bradando aos zurros
“Jesus cristo é o Senhor”
Deixe de ser sofredor
Gritando e dando urros.

Cura asma e dor no peito
Cura falta de respeito
Cura “chifre” e dor de corno
Cura fuxico e intriga
Cura maleita e puxado
Cura ataque “surtado”
De bicha e de rapariga

Religião, cidadão
Hoje é fonte de dinheiro
O cabra que é desordeiro
Mete-se nesta empreitada
Arruma uma gravata
Negaceia, diz bravata
Onde o diabo faz morada.

Religião, meu irmão
Hoje rima com ladrão
Ou rima com safadeza
Mas escute os meus ais
A religião hoje em dia
Nada tem de serventia
Ou rima com hipocrisia.
Quem vive sofrendo tem de aprender a esperar o:

Remédio pra sofrimento

Seu moço não imagina
A tristeza no meu peito
Um dia comigo finda
Porque não há outro jeito.

Quando o cabra tem a sina
E vive só pra sofrer
Somente a dor ensina
A viver de padecer.

E o pobre desgraçado
Não tem onde se ampare
Mais parece um cão danado
Não há remédio que sare.

Pois a sina de quem sofre
(e disto eu sou a prova)
Só finda quando estiver
No fundo de uma cova. (1971)

Nada mais justo de que se ter boa sobrevivência, mas desejaria ter condições de poder viver sem ter de estar precisando de constantemente estar sobressaltado e para tal quereria esta:

Riqueza de caboclo

Para o cabra possuir
Uma riqueza qualquer
Tem de ter uma terrinha
E uma boa mulher

Um bom cavalo de campo
Com arreio apropriado
Pra correr na Faveleira
Pra poder "derrubar" gado

Um cachorro bem ligeiro
Que derrube rês no dente
Um laço bem bom e forte
Pra laçar touro e garrote

Um "corame" bem novinho
Gibão chapéu e perneira
Pra quando na Juremeira
Num se furar com os espinhos

Um facão bem amolado
Do melhor aço que existe
Pra cortar toda madeira
Que por essa banda assiste

Uma espingarda de caça
De mata onça das grossas
Ter no carrasco um brocado
Pra plantar uns pés de roça

Ter um barreiro aprumado
Pra dá água à criação
E para poder plantar
O Jerimum e o Feijão

Ter um roçado de Milho
E uma roça de Algodão
Ter uma roupa bonita
Pras festas do São João

Um Curió cantador
Um Galo bem brigado
Ter reza pra se livrar
Da mandinga e do azar

Saber fazer poesia
Pra cantar em desafio
Ter uma cisterna da boa
Pra ter água no estio

Sê macho forte e valente
Pra poder ser respeitado
E num fazer papel safado
Pra sempre viver honrado

Ter muita fé em Jesus
E na Virgem Santa Maria
Pra se livrar dos quebrantos
Aí por essas travessias

Uma Vaca no cura
Pra beber leite mugido
Ter um rabo de Tatu
Pra nunca ter dor de ouvido

Umas cabras no chiqueiro
A criação no terreiro
Pra ajudar quem precisa
Ter um pouco de dinheiro

Ter um bentinho no pescoço
Pra se livrar dos encantos
Um "Galo" que cante limpo:
"Pade fio esprito santo".

Ter uma rede de casal
De varanda e bem limpinha
Uma viola afinada
Pra tira umas modinhas

Uma mulher bem bonita
Pra que seja sua amada
Que lhe trate com carinho
E ame a filharada.

São essas coisas bem poucas
Queridas com coração
Que formam toda a riqueza
Dos cabras do meu sertão! (1972)

Confiar pode às vezes, ser uma:

Roleta russa

Em três coisas neste mundo,
Só confia quem quiser:
Em bumbum de criancinha,
Dia sem chuva, no inverno
E no "chibiu" de mulher.

Manda quem pode e obedece quem não pode, senão veja o:

Rondó aos poderosos

Quem tem poder, abusando
E nós, sempre relevando
Os fiéis passando fome
E as religiões enricando!

Quem tem poder, abusando
E nós, sempre relevando
Mentindo muito o político
E o eleitor votando!

Quem tem poder, abusando
E nós, sempre relevando
O juiz dando a sentença
E o ministro anulando!

Quem tem poder, abusando
E nós, sempre relevando
A esposa sendo infiel
E o marido perdoando!

Quem tem poder, abusando
E nós, sempre relevando
O demagogo palrando
E o povo acreditando!

Quem tem poder, abusando
E nós, sempre relevando
O rico sempre mais rico
E o pobre ajudando!

Quem tem poder, abusando
E nós, sempre relevando
O mundo evoluindo
E o nosso povo rezando!

Quem tem poder, abusando
E nós, sempre relevando
A justiça fechando o olho
E o narcotráfico aumentando!

Quem tem poder, abusando
E nós, sempre relevando

A educação faltando
E os deuses adorando!

O Sátiro de carteirinha sessa para selecionar em sua:

Sátira

Sátira, satŭra, sátiro,
Socialmente sessando,
Sempre salvando só santos,
Safados satanizando.

Mudanças e modificações estuda a:

Semântica

Há novo significado
Para a palavra ladrão:
Sendo ele da política,
O nome certo é "anão"!

Voltamos à velha gíria,
Para ladrão, Standislau.
Sendo ele da justiça
O nome certo é "lalau".

Lama, esgoto a céu aberto, crimes e outras "jóias" seguem o:

Séquito

Quando a favela chega,
Vem com ela a desgraça
De uma trindade perfeita:
Crente, cachorro e cachaça.

Podemos ser humanos aspirando ao divino sem a dúvida do:

Ser ou não ser!

Ser humano ou ser divino,
Ter ou não ter vaidade?
Pra se ter a conclusão,
Agindo com probidade,
Tem de se ver com cuidado,
Porque senão dá errado:
Essa é a grande verdade.

Querendo ser bem humano,
Dentro da sociedade,
Devemos ser bem amados,
Logo, bem na mocidade.
Tem de se criar raiz,
Viver contente e feliz:
Essa é a grande verdade.

Ser muito trabalhador,
Agir com honestidade,
Sempre devendo ajudar
A causa da liberdade.
Procurando entender
E a todos compreender:
Essa é a grande verdade.

Ser bem relacionado,
Não agindo com maldade,
Procurando ajudar
Com toda sinceridade.
Sempre servir aos amigos,
Evitando o perigo:
Essa é a grande verdade.

Se quiser ser bem humano,
Não pode ter vaidade,
Deve pautar seu viver
Dentro da simplicidade.
Viver dentro da pobreza,
Evitando a riqueza:
Essa é a grande verdade.

Viver cercados de amigos,
Fazer muita caridade,
Viver sempre bem contente
E ter popularidade.
Deve ter porte bonito,
Nunca se mostrar aflito:
Essa é a grande verdade.

Para se ser bem humano,
Tem de viver em cidade,
Viver entre muita gente
Com muito boa vontade.
Deve ser muito querido,
Para ser bem recebido:
Essa é a grande verdade.

Para ser homem perfeito,
Tem de ter serenidade,
Viver uma vida justa
Dentro da moralidade.
Nunca ter ódio nem ira
E livrar-se da mentira:
Essa é a grande verdade.

Entre o humano e o divino,
Digo com sinceridade,
Existe uma diferença,

Que é a maior realidade:
Seguem opostos caminhos,
Como entre água e vinho.
É a única verdade.

Ia de madrugada para uma trilha e deparei com "fãs" de "duplas"que vinham de um:

Show

“Aquilo é que foi um show!”
Disse ele satisfeito.
Eu vi naquele sujeito,
Que ele merecia um show!

Por ter gasto seu dinheiro,
Pra ir assistir aos “*amigos”
E eu pensei cá comigo:
Debilóide por inteiro!

Mas não se discute gosto,
Gosto a gente lamenta.
Não sou homem de contenda,
Preferi torcer o rosto.

E logo veio à lembrança,
Que há um show de verdade,
Pleno de muita saudade
Do meu tempo de criança!

E sempre quero assistir
Esse show sem ter tamanho,
Num palco feito de sonho,
Sempre e sempre repetir.

Minha dinda dizendo: xô!
Me mandando ir brincar.
(ô saudade de lascar!)
A infância, sim, é – show!

Cada qual com sua:

Sina

Gosto tanto de mulher,
Que te digo, avexado:
Se a bicha fosse mel
Ai, ai
Eu só andava melado.

Sei que a mulher foi feita
Pra gente sofrer, doutor,
Mas se ela for carinhosa
Ai, ai
Eu quero ser sofredor.

Cada qual com seus cada quais e não fugindo à regra sou:

Sonhista

Soubesse escrever sonetos
Seria bom "sonetista",
Soubesse escrever contos
Seria um bom contista,
Soubesse eu fazer arte
Seria um bom artista,
Mas só sei viver de sonhos
Qual o quê?!
Logo, sou um bom "sonhista"

Tudo vai depender de interpretações para evitar:

Surpresa

Preso, o fero matador,
Ouve da autoridade:
– Irá pagar por seu crime!

Mas o matador perplexo,
Achando aquilo sem nexo,
Exigindo seus direitos,
Pergunta com autoridade:
– Por que agora pagar,
Se recebo pra matar? (1965)

Se se prestar realmente a atenção em certos seres notamos a:

Sutileza

O homem cuida do corpo,
Pra o cérebro sustentar.
Mas sinta a sutileza:
A mulher cuida do corpo,
Para o sexo ornamentar.

Vamos ficar atento para este:

Tabagismo

Sou tabaquista confesso,
Digo a minha bem-amada:
Uma tabacada é boa,
Pós uma boa “tabacada”!

Deuses governam manipulando fantoches e sua:

Teocracia

Jerusalém – mais dalém e mais daquém!
Medina – mantém ainda a medida!
Vaticano – quanto mais você progride,
Mais eu entro pelo cano!

As suas felicidades
São sempre, meus desenganos,
Suas buscas por poder,
Destroem todos os meus planos.

De vocês partem as bestas,
Que destroem o mundo inteiro,
A tudo e todos corrompem,
Pagando trinta dinheiros.

Pelos seus deuses cruéis,
A todos causam terror,
Espalham miséria e morte,
Fazem do mundo um horror.

Destroem ideais de paz
Em disputas fratricidas,
Por terem supremacia,
Tornaram-se genocidas.

Jerusalém, que além;
Medina sem mais medida
E que aquém, vaticano!
São babilônias modernas,
Que produzem falsos sonhos!

Indiscutivelmente este deve ser o:

Tipo ideal

Mulher calada é maldosa,
A mulrer mansa ela é sonsa:
Mulher só presta teimosa,
Ai, ai
E braba que nem a onça! (1964)

Respondendo a um "desafio" na cantoria fiz este:

Topo tudo todo tempo

A Manezinho de Icó – 2002

Meu amigo Manezinho
Manezinho de Icó
Convidou-me pra peleja
Mas vou lhe dar uma deixa
Pra métrica ser melhor
Ai, ai
Gemo eu de fazer dó.

Repare nesse seu verso
“Eu gosto de comer com pão”
Num tá sobrando uma sílaba?
Não cabe a elisão
Nem mesmo cabe sinérese
Ai, ai
Ai que dor no coração.

Eu sei que foi um descuido
Manezinho, meu irmão.
Eu gosto da gemedeira
Do cabresto do mourão
Da pancada do martelo
Ai, ai
Pois tudo lembra: sertão

A zombadeira é minha
Pois gosto de novidade
E a criei na verdade
Pra zombar de cabra ruim
Você é um irmão pra mim
Ai, ai
Se eu zombar, é o meu fim!

Cabra macho do Icó
Vou dum jeito diferente

Eu mudo o pé e chego galopando
Não corra, não fuja nem fique amarelo
Sustente a cadência e não vá se espantar
Pois verso em galope-da-beira-do-mar
Se quer um martelo vamos pelejar
Se quer um mourão, também chego lá.
Se quer um mourão voltado
Eu posso voltar mourão
Eu mudo o pé da estância
Ai, ai
Comigo não tem distância.

Se quiser quadra
Eu vou quadrar.
Se quiser a quina
Eu vou pra menina.
Se entrar numa sena
Entro nela sem pena.

Mudo o pé num repente
Pois vivo sempre contente
Com rima emparelhada
Ou também na intercalada
Posso fazer carretilha
Dentro de estrofe bárbara
De monóstico a alexandrino.

Tudo ouço desde de menino
E por aqui eu termino
Lhe deixando meu carinho
Ó meu irmão, Manezinho!

Não devemos chegar a extremos, pois podemos chegar à:

Transparência

Procurei ser transparente,
E me esqueci de mim.
Querendo ficar translúcido,
Quase de-sa-pa-re-ci.

Talibã

“Tu és marabá!” (G.D)

Eu vivo sozinho
Longe da luxúria
A minha postura
Só lembra Satã?
Se algum dentre os homens
De mim não se esconde
– Tu és, me responde:
– Tu és talibã!

Meu negro turbante
Que minha fronte esconde
Me faz elegante
Mas sem amanhã.
Sou bom terrorista
Mato criancinha
E também velhinha,
Pois sou talibã!

Na minha "Jihrad"
Mato o infiel
Tio Sam e Noel
E a corja cristã.
Destruirei o mundo
Bin Laden é meu guia
É quem me alumia,
Pois sou talibã!

Ianque ou Russo
Judeu ou Cristão
E até Afegão
Meu irmão e minha irmã.
Espalho antraz
E a peste bubônica
Até bomba atômica,
Pois sou talibã!

Eu quero morrer
Com bomba na mão
Em um avião
Da Varig ou da TAM.
No meu paraíso
Com mulheres mil
Não serei servil,
Pois sou talibã!

Sou filho de Hagar,
A injustiçada,
Que foi abandonada
Para morte vã.
Vivo pra vingar
Tal atrocidade
Porque na verdade:
Eu sou talibã!

Os maus me odeiam
Pois me acham louco
Me faço de mouco
Tenho a mente sã.
Meu deus que é maior
Me manda matar
E aterrorizar,
Pois sou talibã!

A corja infiel
Sentirá sua mão
Por faca ou canhão
Na noite ou manhã.
Não descansarei
Enquanto existir
Um infiel por aqui,
Pois sou talibã!

O mundo perfeito
Somente será
Se não mais restar
Judia ou Cristã.
Budista ou Hindu
Hão de perecer
Pois há de vencer
A fé talibã!

Receio que um dia
Hoje ou amanhã
O meu deus será
Maior que tupã
A minha grande fé
Na morte hei de ter
Ninguém irá vencer
O afã talibã!

Manter sempre o mesmo ritmo no verso às vezes torna monótono o texto e deslocando-se uma tônica podemos afirmar com orgulho que:

Também faço pé quebrado

Eu ando meio pra trás
Com esta história de metro
E só em pensar eu medro
E fico com um pé a mais
Além dos dois que já herdados
Mas fico meio apavorado
Sem procurar errar mais:
Também faço um pé quebrado.

Rimo e fica rimado
O plural com singular
Eu rodeio e chego lá
Mas o pé sai empenado
Penso e desmantelado
Mas conserto como posso
Não leio, porque fico calado:
Também faço pé quebrado.

Quando a estância é certinha
Arrumada e bonitinha
Cheinha de laço e fitinha
Azul e encarnadinha
Eu me sinto mesmo um bardo
Um bardo muito afamado
Pois versejo na horinha:
Também faço pé quebrado.

Que se dane essa tal de métrica
Pois a arte poética
Não vive dessa frescura
E dispensa a tal da rima
Um verso semitonado
É um tiro muito bem detonado
No ouvido do freguês:
Também faço pé quebrado.

Sento ao computador
Dano palavras sem nexos
Rimo sexo com o plexo
Pois não tenho nenhum complexo
Porque não sou mascarado
Rima pobre ou rima rica
Amor que fica é o que edifica:
Também faço pé quebrado.
Quem não faz um pé quebrado.

Não dorme, fica acordado
Não – fica broxado
Não arrota, fica empachado
Não – fica constipado
Não corneia, é corneado
Só vive mal informado:
Também faço pé quebrado.

Aqui dentro da Usina
A convivência ensina
A só gostar do que é bom
Conserto o passo e o tom
Para o verso sair rimado
Tenho esperança que um dia
Eu veja a minha virgem Sofia,
Também fazer pé quebrado.

Relatei o que sabia
Hoje nessas oito oitavas
Ouvindo até anja
Mandando-me ficar calado
Amanhã quem saberá
Nunca se sabe o futuro
Ou tampouco o que pra nós virá:
Também fiz meus pés quebrados.

Não há tempo para aprender e o neto me ensinou com a:

Ultramodernidade

O preocupado avô
Externa a sua angústia:
– Minha filha é sem cabeça
E sabe que ele não serve!

O neto que tudo ouve
Fala com sabedoria:
– Se aperreia porque quer,
É minha mãe, mas – mulher.

As seitas se globalizaram e o Edir Macedo cria o:

Universalismo

O dízimo (que é anual),
É o décimo dos bens,
Modernamente, porém
Transformou-o, a “universal”
Em propina semanal
Pra subornar o além.

Dá-se dinheiro ao pastor,
Pois somente ele pode
Dividir certinho os cobres
E repassar pro senhor,
* mas não tem bolso o senhor
Vai o suborno pro pobre?*

Não! Vai para a “pastoral”,
Vai também para a piscina,
Pro “garotão”, pra “menina”,
Pro “carango” do pastor,
E pra que mais se destina?
Para os bancos da suíça?

Qualquer mulher casada que deixa de amar destila o:

Veneno feminino

Se a mulher bem soubesse,
Não brigava com o marido,
Pois por tudo se aborrece
E reclama por castigo.

Diz que a vida era melhor,
Quando na casa do pai
E que só suporta “aquilo”
Pelos filhos nada mais.

E o pobre de Sol-a-Sol,
Caleja as mãos na enxada,
Pra comprar chita melhor
E enfeitar a bem-amada.

Vai ficando aperreado
Ou pipoca ou amofina.
Língua: veneno danado,
Bem pior que estricnina! (1964)

Aquilo que não vemos ou conhecemos pode existir, pois:

Você não viu, mas eu vi
Ao poeta Manezinho de Icó

Tô anoso e alquebrado
Da idade sinto a dor
Mas num sô um sofredor
Nem me pesa o coração.
Eu gosto de fazer versos
Pois me conduzem ao céu
Gosto de cantar cordel
Nos oito pés de quadrão

Meu poeta Manezinho
Lá das banda do Icó
Terrinha de cabra macho
Que não teme assombração
Mas eu garanto que vi
Coisas que não viu você
E vou logo lhe dizer
Nos oito pés do quadrão.

Andei lendo os seus versos
E fiquei feliz da vida
Você tem alma florida
E um grande coração
Já andei por muitos ares
Vi coisa que deus duvida
Amo a vida bem vivida
E os oito pés do quadrão.

O leão nasce do ovo,
(que é o óvulo fecundado),
De onde vem todo vivente
Preste bastante atenção:
Nós viemos de um ovo
(dois ovos pra ser exato)
Eu lhe digo sem ser chato
Nos oito pés do quadrão.

Ter cabeça sem pescoço
Existe pra mais da conta
Na Lula, o cefalópodes
E no polvo, meu irmão.
Que são viventes do mar
E gostosos de comer
Garanto a vossa mercê
Nos oito pés do quadrão.

Melancia sem caroço
Sem unzinho pra remédio
Como quase todo dia
No lanche e na refeição.
É colhida em Natal
E de lá eu sou freguês
Quem planta é japonês
Nos oito pés do quadrão

Malando ir pro emprego?
Malandro e desocupado?
Esqueceu dos deputados
Manezinho, meu irmão?
Malando trabalhador
O que a gente não vê
Afirmo a vossa mercê
Nos oito pés do quadrão.

Milionário vai pro céu
Essa logo eu garanto
E digo sem muito espanto
Esqueceu do Salomão?
Existiu cabra mais rico
Milionário de fato
E deve ter salmodiado
Nos oito pés do quadrão.

Criança gostar de escola
Vejo e curto todo dia
Não me dá muita alegria
Nem alegra o coração
Pois não vão atrás de estudo
E sim atrás de merenda
Faço essa reprimenda
Nos oito pés do quadrão

Tenho jangada e pesco
Pego peixe todo dia
Vendo para a freguesia
Para arrumar meu tostão
Tenho uma vela enorme
Mas ela num alumia
Digo e dou garantia
Nos oito pés do quadrão.

Diz as Santas Escrituras
Nas palavras do Senhor
Que nos espera no céu
E nos dá o galardão
Pois ali é verdadeiro:
Que o último é o primeiro
Inda tem pés de quadrão

Não conheço mestre Egídio
Mas desejo conhecer
Com ele quero aprender
O martelo e o mourão
E se ele me ensinar
Quero aprender a cantar
Um galope a beira mar
E os oito pés do quadrão.

Respostei com alegria
Humildemente falei
Outras coisas também sei
Manezinho, meu irmão!
Agora eu vou saindo
Não existe em mim maldade
Não faltei com a verdade
Ou com os oitos do quadrão.

Há quem concorde, há quem discorde, mas:

Vox populi, vox dei

Falaram, e não me lembro
“Que é acéfala, a multidão.”
Mas a multidão é povo
E o povo não mente, não.

Fala de desunião,
De assassinato, de guerras,
De pobreza, de miséria
De invasão, de sem terras.

Da *unda da Tiazinha.
Da banheira do gugu.
Da “garrafa” do baiano
Que “esconde” sempre no *

Do caráter do político
Pra enganar o eleitor.
Do carisma mafioso
Do padre e do pastor.

Do despreparo uLulante
Do pobre do professor.
Do arrepender-se tardio
Do salvo, ex-pecador.

Da justiça nada cega
Exercida por Lalau
E do porta-de-cadeia
Sacana cara de pau.

Fala que ser “gaieira”
Emerge no social.
Que aceitar a propina
É coisa bem natural.

Que “de menor” delinquente
É criancinha carente,
Pois sempre são sofredores
Nascidos de pais ausentes.

Que ser honesto é crime
Hediondo, por sinal.
O certo é ser esperto
Para nunca se dar mal.

Que rico não vai pro céu
Somente o pobre escolhido
Que a riqueza é pecado
Faz ser da “grória”, excluído.

Meta o “chiquito pra cima”
Enquanto puder pecar,
Pois quando não puder mais
Tem Jesus pra perdoar.

Tudo isto fala o povo:
Só se fala do que gosta.
Mas sem melhor opção
O povo gosta é de...

Cada um fala o que gosta
Ó caros amigos meus,
O que o povo fala é lei:
A voz do povo é a de Deus.

Tem a"gemedeira", mas gosto de inovar e como satírico que sou falo por esta:

Zombadeira

Ora bolas! Ora bolas! Ora bolas! Que fazer com a poesia? Fazer dela o arauto de sonhos irrealizados? * Sonhos irrealizados? Problema seu! * Fazer dela instrumento de denúncias? * Denúncias? Deixa com o Ministério Público. * Fazer dela um meio de sobrevivência? * Sobrevivência? Melhor é pegar no pesado. * Fazer dela um instrumento de tortura? * Tortura? Deixa pra religião.* Fazer dela uma ponte para a eternidade? * Eternidade? Acredita que não acredito? Ora bolas, bolas, bolas! Faça somente poesia!

Poesia não é nada disso!
Poesia é tudo isso.
Poesia é contradição.
Poesia é paradoxo.
Poesia não é nada.
Poesia apenas existe.
Poesia apenas é.
Isto é: é e não é.

Os fatos são pra História,
Lugares, pra Geografia;
Destino, pra Astrologia;
Amor, para o coração
E outras cositas más!
Qual o quê?!
Poesia não é não!

Se você denunciar,
Que há político ladrão,
Que só enganam, do povo
O pobre sem instrução.
Cê queira me desculpar,
Qual o quê?!
Poesia não é não!

Se você denunciar,
Que os líderes religiosos,
Querem o povo ignorante
E os burla sem compaixão.
Cê queira me desculpar,
Qual o quê?!
Poesia não é não

Se você denunciar,
Que entre os líderes políticos,
Representantes do povo,
Sempre haverá um “anão”.
Cê queira me desculpar,
Qual o quê?!
Poesia não é não!

Se você denunciar,
Que quem vive em oposição,
É porque não é capaz
E nunca entende a questão.
Cê queira me desculpar,
Qual o quê?!
Poesia não é não!

Se quiser culpar alguém
Pela sua frustração,
Dizendo que é perseguido,
Mas sem dar comprovação.
Cê queira me desculpar,
Qual o quê?!
Poesia não é não!

Se você quiser viver
Da alheia compaixão,
Dizendo que seu sofrer
É por falta de união.
Cê queira me desculpar,
Qual o quê?!
Poesia não é não!

Se você denunciar,
Que líderes religiosos,
Se dizendo homens puros,
Praticam a “abominação”.
Cê queira me desculpar,
Qual o quê?!
Poesia não é não!

Se você denunciar,
Que há muitos policiais,
Que além da truculência,
Induzem à corrupção.
Cê queira me desculpar,
Qual o quê?!
Poesia não é não!

Se só quiser afirmar,
Que em tudo há poesia,
Você está enganado,
Errado e desinformado,
Mas queira me desculpar,
Não e não e não e não!
Poesia?