sexta-feira, 23 de setembro de 2016

A hipocrisia nossa de cada dia

            Quem João, o Batista, chamava de “raça de víboras”? Quem Jesus, o Cristo, comparava a “sepulturas caiadas”? Que representa a Catedral de “Notre Dame” para a fé cristã? Que é hipocrisia? Que tem a ver entre si estes questionamentos?
            Victor Hugo ao publicar Notre-Dame de Paris (1831), romance medievalista centrado na tragédia do corcunda Quasímodo e da cigana Esmeralda, nos deixou uma mensagem cifrada sobre a hipocrisia. Quasímodo é o nome eclesiástico da Pascoela e Esmeralda é a gema que representa a fidelidade feminina.
Podemos descortinar nessa tragédia quase autobiográfica, sua ligação com a jovem atriz Juliette Drouet, que a ele se devotaria até morrer, dois anos antes da sua, quando fez com que Esmeralda pedisse o auxílio a Quasímodo tocando o sino que ele nomeara de Juliette.
            Há toda uma carga simbólica paradoxal à “sepultura” que Jesus combatia, pois, ao contrário desta, Quasímodo era “feio por fora” e “bonito por dentro”. Esmeralda, mesmo cigana, mantinha-se fiel ao amor verdadeiro.
            Na afetação de uma virtude que não têm e se aparenta ter é que está centrada a maldade humana. Dizer sim quando  conscientemente o certo é dizer não é a mais vil forma de hipocrisia.
            Hipócrita era o homem ancestral e hipócrita é o homem atual. A hipocrisia é eterna e existirá enquanto houver quem a cultive.
            Os hipócritas conseguem ser hipócritas até quando têm certeza de não serem hipócritas. Ser hipócrita é negar-se a si mesmo, e de uma forma visceral. Percebe-se no “como você está” corriqueiro o quanto há de hipocrisia quando se responde o “estou bem”.
            São hipócritas quando invadem Favelas à cata de fiéis, para anunciar-lhes que hipócritas anteriores prometeram paraísos riquíssimos depois de se morrer.
            São hipócritas quando piedosos pelos simples fato de manterem, sempre e sempre, os alvos da piedade em condições de necessitar imprescindivelmente de ajuda por não terem dado a eles meios para progredirem e proverem suas necessidades.
            São hipócritas quando exortam a pobreza aos pobres de espírito com falsas alegações de pretensos deuses pobres para que a riqueza seja menos acessível a eles.
            São hipócritas quando criam deuses para perdoar castigos que sabem não existir para fazer com que parcos de instrução sigam na busca do perdão para eles verdadeiro.
            Às claras parecem "puros e limpos de coração", mas no "tête à tête", à socapa, nos escondidinhos, nos "por baixo dos panos", no banheiro são impuros e sujos tal qual "pau de galinheiro".
             Não buscam o céu, evitam o inferno e para isso "fazemos qualquer negócio".
            Não respeitam a lei – têm medo da cadeia e para isso usam e abusam da cega, surda, muda e manipulável justiça.
            Não são filantropos, burlam o fisco e para tal criam "institutos", "fundações", "ongs" e outras "maracutaias".

            São hipócritas anônimos. Hipócritas e hipócritas. Com o "faça o que digo e não faça o que faço" provam e comprovam que são hipócritas e hipócritas e hipócritas no significado mais vil da hipocrisia.

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