terça-feira, 4 de outubro de 2016

Textos Irritantes I



            Sei qui sô pobe. Sei qui sô anarfabeto. Sei qui tenho a famia muito grande. Mai de dei fios, mai isso num é importante.
            Sei qui eu quando era moço, pintei e bordei, fiz coisa qui inté Deus duvida. Tudo o quanto num presta: Tumei munta cachaça, butei munto chifre, levantei farço, tive mai de dei mulé, um bocado de fio bastardo, mai isso num é importante.
            Sei qui atuarmente moro numa invasão na beira dum morro cum a famia qui a todo momento aquilo tudo pode vim pru riba da gente, mai isso não tem importância.
            Sei qui a minha mulé não é lá esses balai. Quandu era mai nova era os pé da besta, pintava e bordava direitin. Hoje adispois de mai veia, eu ainda discunfio dela, mai isso num tem importância.
            Sei qui além dos da mulé eu ainda tenho uns deis fio, fora os qui morreu e qui anda tudo pru aí afora disgarrado, mai isso num é importante.
            Sei qui o mai veio tá cumprindo pena lá prus lado de Sum Paulo (negócio de seqresto), qui o do meio trabaia num a boate, parece qui ele é um tá de travestido e qui o mai novin vende um tá de craque e cheira cola, mai isso num é importante.
            Sei qui a minha fia mai veia tá morando cum um traficante, lá prus lado do Cóigo do Quelé e qui a encostada nela, junto cum a do meio, mora numa boate lá prus lado da zona das muié dama, mai isso num é importante.
            Sei qui a mai nova qui mora comigo, tem um geno de cascavé: chegô perto dela arranha e morde, mai isso num tem importância.
            Sei qui a incostada a ela é cega e a outra é aleijada e doida, mai isso num tem importância.
            Sei que a mai taludinha (qui tá na tá de adorlecença) é os pé da besta (puxô a mãe) só vévi pulas isquinas agarrada cum tudo qui é malandra e macunhero e dize até qui tá buchada, mai isso num é importante.
            Sei qui tamo passando uma nicicidade horrive e qui nóis num tem onde caí morto e pra cumpretá vivo desempregado, mai isso num tem importância.
            Só sei qui o qui é importante é qui sou evangéico, incontrei o Sinhô Jisus, pago meu dismo (mermo pidindo prus otros) e tô sarvo.
            Aliluia! Grória a Deus! Aliluia, Irimão! Fique na pai do Sinhô!**

É assim ... Então

Elenco

            Pai – Cinquentão, calvo, grisalho, bem vestido.
            Filho careta – Vinte e cinco anos, formal, bem vestido.
            Filho esperto – Vinte anos, pra frente, na onda.

Cena 1

(Diálogo entre pai e filhos)
P– Filho, sai desta vida de boêmia. Desde cedo você é disperso!
Fc– Está vendo, Mano. Pára de dar desgostos ao Papai!
Fe– Quequéisso! Larguem do meu pé! Qual é a de vocês?
P– Filho, nós só queremos o seu bem. Não me dê tanta preocupação, Filho.
Fc– É meu querido irmão, vê se não dá mais...
Fe– Qual é? E por falar em dar, por que o Paizão não me dá algum por conta? Acho que tenho direito e além do mais quero correr mudo e voltar rico. Muito rico!!
P– Filho, tudo faço por você, nada de sair por aí. Toma R$5.000 e vê se não faz mais bobagens. Eu e sua mãe não suportamos mais.
Fe– Falou, Paizão. Falou!
P– Veja bem. Este é o último. O último!
Fc– Pai, não faça isto. O senhor sabe que ele...
Fe– Qual é, Mano? Quer sujar a minha barra?! Só não mando você ir para a p.q.p. porque sou amarradão na mãe!
P– Que é isso meus filhos! Olhem a união!

Cena 2

(Filho esperto dialoga com o Pai)
Fe– Pai, acho que chegou a hora da verdade. Já não aguento mais! Tenho que sair pela aí e conhecer o mundo lá de fora. Quero a minha parte na herança. É um direito que tenho, já sou bem crescidinho e sei me cuidar muito bem.
P– Filho, não me dê desgosto. Não aguentaria vê-lo partir.
(Filho careta entrando em cena)
Fc– Pai, eu escutei a conversa e acho que o Mano tem razão. Ele já não é menino e merece um crédito de confiança. Além do mais ele realmente, tem direito a parte da herança e prendê-lo por aqui, não vai adiantar de nada.
P– Filho, até você que é tão ponderado e responsável?!
Fe– Certo, Coroa. O Mano agora, falou e disse.
Fc– Pai, o Maninho e meio amalucado, mas não é burro. Quem sabe depois de conhecer o mundo aí fora, ele não toma jeito?
P– É filhos, se é isso que vocês querem, o que posso fazer?
Fc– Deixa, pai. Acho que ele não fará besteira e se fizer...
Fe– Qual é? Deu pra trás foi? Quer sujar minha barra!
P– Está bom. Está bom. Seja o que Deus quiser.

Cena 3

(Diálogo entre o Pai e o Filho careta)
P– Meu filho, recebi, hoje, uma notícia terrível. Estou arrasado. Seu irmão está em uma situação desesperadora. Perdeu tudo o que tinha, passando privações e não tem nem onde morar.
Fc– Pai, por esta eu já esperava.
P– Se já esperava por que me convenceu a deixá-lo ir? Foi uma maldade de sua parte.
Fc– Pai, o senhor bem sabe que não foi nenhuma maldade minha e além do mais o senhor também, sabe que de nada adiantaria minha opinião.
            O senhor sempre acaba fazendo tudo o que ele quer. Sempre foi assim e sempre será, mas como foi que aconteceu?
P– Parece que ele foi tapeado por uns falsos amigos e...
Fc– Tem certeza, Pai? O senhor acha que o Mano, esperto como é, ia se deixar tapear por alguém? Me conta a verdade!
P– Filho, o motivo não importa...
Fc– Não o quê, Pai? Não foi assim que o senhor nos ensinou. O motivo importa sim. E importa muito!
P– Certo, Filho. Ele perdeu tudo em farras e com mulheres. Dizem que está comendo o que resta até de porcos.
Fc– Pai, ele está colhendo o que plantou. Costume de casa vai à praça. Não é o que o senhor sempre diz?
P– Certo, Filho. Mas, acho que desta vez ele aprendeu a lição. Vou mandar buscá-lo. O que é que você acha?
Fc– Acho que o senhor devia deixá-lo por lá. Ele voltará, tenho certeza. Ah! Se voltará.
P–  Não! Vou mandar buscá-lo. Ele é meu filho.
Fc– Adiantou minha opinião? Pau que nasce torto... mija fora da bacia. Acho que o Senhor não deveria, mas...
P– Não há mais ou meio mais, vou mandar buscá-lo e fim.

Cena 4

(Está havendo uma tremenda, festa).
P– Silêncio. Silêncio, por favor. – Amigos, esta festa é em homenagem ao meu filho amado, que estava perdido e foi encontrado. Que estava morto e ressurgiu um novo homem. Meu filho voltou para o nosso convívio e para completar a nossa felicidade.
Fe– Falou, Coroa! É isso aí. Isto é que é ... Paizão!
P– Meu filho está de volta, alegremo-nos. Isso é o que importa.
Fc– Mas... Pai! Eu que sempre vivi ao seu lado, trabalhando de Sol a Sol, suando e sofrendo, para que tivéssemos uma vida digna e ... nunca recebi nenhum presentinho que fosse.
P– Sei, Filho, mas...
Fc– Pai, o Mano que nunca quis nada de nada. Esbanjou tudo o que possuía...
P– Filho, deixa pra lá. Alegremo-nos. Venha para a festa!
Fe– É isso aí, Mano. O Paizão tem razão Veja que gata! Saca só este tcham!
Fc– Não posso, Mano. Se eu participar desta festa estarei traindo os princípios pelos quais lutei e nos quais acredito. Onde está a Moral? Onde está a Decência?
Fe– Que isso, Mano? Quer cortar o meu barato? Deixa de ser careta! Deixa de ser empata foda, Cara! Sem essa de moral e decência. – Escolha uma mina e vem cair na gandaia!
P– Meu Filho, deixa de ser caretaço. É tempo de alegria. Seu irmão estava morto e ressuscitou! Era a ovelha que havia se perdido e agora retorna ao seu aprisco! Alegremo-nos!
Fc– É assim ... Então... Vou às mulheres.


            Num cenário celestial, entra um único ator e inicia um monólogo/diálogo. (não é possível o diálogo em virtude de os dois personagens serem apenas um)
            Filho    : (ansioso) – Ô Pai, quando será a Parusia?!
            Pai       : (interrompendo o descanso eterno e preocupado) – Filho, temos um grande problema! Eu e você somos um, certo?
            Filho    : (concorde) – Claro, Pai! E ainda tem o Espírito, certo?
            Pai       : (agradecido) – Certo! Ia me esquecendo, mas deixa pra lá. O certo é que você pisou na bola quando disse (Mat. 24:36) – que só eu sabia do dia da sua volta triunfal àquele planeta... Àquele... Àquele lá no final da Via Lacta... Qual é mesmo o nome?
            Filho    : (solícito) – Terra, Pai, Terra!
            Pai       : (agradecido) – Certo, Filho, certo. É que quando olho somente vejo água e... Deixa pra lá. Como ia falando: você... Você o que, mesmo?
            Filho    : (solícito) – Pisei na bola, Pai.
            Pai       : (surpreso) – E você joga futebol?!
            Filho    : (explicativo) – É o seguinte, Paizão: De acordo com o Marcelinho carioca, um atleta meu, sou eu quem chuta a bola para o gol, logo... E tem mais: eu tenho atleta até em Luta livre...
            Pai       : (perplexo) – Vale-me Eu! E pode?!
            Filho    : (apreensivo) – Bem, poder pode; não deve. E é por isso que eu quero voltar logo à Terra a fim de por em ordem aquela bagunça.
            Pai       : (lembrado) – Ah, sim! Que só quem sabia da sua Parusia era eu. Você esqueceu que eu e você somos um, como é que você não sabia?! Somos ou não somos Oniscientes?!
            Filho    : (confuso) – Bom, Pai, tenho minhas dúvidas, pois ao criarmos o homem e a mulher, nós não sabíamos que ia dar no que deu, e é tão verdade que o Senhor, arrependido, (Gn. 5:6) quis acabar com todos e se não fosse o Noé...
            Pai       : (encabulado) – Filho, também não leve tudo ao pé da letra feito os fundamentais radicais, que estão detonando tudo em guerras santas... E o que é pior: Em meus nomes, hodiernamente; e no seu como fizeram durante a Idade das Trevas, que vivamente, mudaram para Idade Média.
            Filho    : (concorde) – Pai! Por isso tenho de voltar e implantar nosso reino, e além do mais estabeleci um prazo (Mt. 24:34) que até agora eu não pude cumprir e...
            Pai       : (observador) – Não pôde ou não quis? Somos ou não somos Onipotentes?!
            Filho    : (temeroso e confuso) – Bem! Quer dizer! O Senhor sabe... Onipotentes...
            Pai       : (preocupado) – Como é... Desembucha, Filhoca! Somos ou não somos?! Está parecendo político da oposição em cargo da situação, fale!
            Filho    : (temeroso) – Somos Onipotentes: Eu, o Senhor, o Espírito... E... E...
            Pai       : (surpreso) – E o quê. Somos uma Triunidade e pelo que a mim consta somos apenas três em um, pois nunca vi trindade de quatro, mesmo já tendo visto par de três e até de quatro, como é o caso dos casais modernos, mas quem é este outro e?
            Filho    : (observador) – Pai, lembre-se que nós criamos o ..., o...
            Pai       : (ansioso) – Quem, homem de Mim?! Detone!
            Filho    : (complementando) — O Lúcifer, Pai. O Satã! O maninho que, depois de rebelar-se contra nós, ficou poderoso "paca" e nós temos tentado de tudo para acabar com a goga dele, mas...
            Pai       : (repressivo) – Momento, Filhoca, não confunda as coisas! Claro que criei (falo por nós três) — o Lúcifer, o Portador da Luz, e criamos para que houvesse o equilíbrio. Infelizmente os nossos representantes sacros não entenderam que seu sacrifício permitiu a evolução lá na Terra, e criaram este tal de Satã, caricatura grotesca e maldosa do nosso Lúcifer, que é o “príncipe da Terra”. Nunca eu quisemos acabar com o equilíbrio. Eu sou, isto é, eu somos, (pô, unir nós três em um único eu, complica) — perfeito e misericordioso. Não confunda misericórdia com fraqueza, ora!
            Filho    :(ponderado) – Certo, Paizão, não vê o caso do Judas: era necessário e não entenderam. Mas com misericórdia ou sem misericórdia o maninho... Maninho não filhinho, pois eu, sendo eu e o Senhor em um só ele é meu filho, (família complicada, né, Pai?), mas isto não vem ao caso porque vai embananar mais ainda. O que é certo é que o diabinho tem aprontado poucas e boas.
            Pai       : (Paternal) – Deixa estar, Filho, o café dele está se coando! Pego ele de jeito (Ex. 20:5, 6) — e ele vai ver o que é bom pra tosse, pois o “bom pai repreende ao filho que ama”, esqueceu?!
            Filho    : (ponderado) — Pai, e se ele como o Dimas, pedir perdão...
            Pai       : (repressivo) – Acabe com isto! Esta história de perdão é outra história e ...
            Filho    : (interrompendo, concorde) – Não está mais aqui quem falou, mas...
            Pai       : (complacente) – Filho, como você pode não estar mais aqui se somos Onipresentes, já esqueceu, digo, esquecemos?!
            Filho    : (confuso) – Pai, por falar em onipresença: o Onipresente pode não estar em um lugar?!
            Pai       : (convincente) – Claro que não, Filhoca! Não é exatamente isto que acabei de nos lembrar, ora!
            Filho    (muito confuso) – Pai, se nós eternamente e sempre estou presentes como é que eu saí da Terra para precisar da Parusia?! O Paráclito não ficamos lá?!
            Pai       : (surpreso e muitíssimo confuso) – Simples! Eu achamos que está tudo embananado e que... E que... O que escreveram a nosso respeito...
            Filho    : (justificando-se) – Pai, no meu, digo, nosso caso, somente escreveram sobre mim, isto é, nós (sei lá mais eu) muito tempo depois que eu saí, digo, eu saímos, ou saímos sem eu sairmos (está parecendo à volta do que não foi) da Terra. E escrever sobre o que ouviu dizer: quem conta um conto aumenta um ponto. Eu achamos, ter muita coisa escrita errada, ... E bota errada nisso!
            Pai       : (confuso e professoral) – Filho, “nós... estou”, “eu... achamos”, esta gramática está mais complicada que nossa Triunidade. Pega leve!
            Filho    : (explicativo) – Sei, Pai, mas como deve ser? Se eu falar “eu estou” vai dar a entender que eu sou único; se eu falar “nós estamos” vão entender que somos muitos. E agora?!
            Pai       : (concorde) – É. É uma saída. Meio complexa, mas... soluciona. Não vê palanques eleitoreiros?!
            Filho    : (interrogativo) – Ô Pai, toda esta confusão de três em um não seria porque existe pouca sabedoria e muita ignorância entre nossos filhos, lá da Terra? É uma confusão que está fazendo inveja até a economista governamental. E olhe que este povinho é complicado!
            Pai       : (concorde) – Claro que é! Ignorância da maioria e sabedoria de uns poucos. Principalmente dos administradores que eu encarregamos de cuidar dos nossos interesses pessoais, no Levítico.
            Filho    : (corroborativo) – Tá aí nosso problema, Pai! O Senhor inspiramos os profetas e veja quantos apareceram. Tem neguinho que mudou até nosso nome. Eu fomos pessoalmente, falamos e entenderam tudo errado. Eu deixamos nossos administradores sacros e mudaram tudo e ... Fazem errado, falam errado e ainda inventaram que: “Vox populi; vox Dei” ... Tem jeito, Pai?!
            Pai       : (concorde) – Se mudaram, Filhoca, como mudaram! Eu proibimos este negócio de “homem com homem” e a maioria dos nossos administradores sacros são os primeiros; eu dissemos pra eles que: “crescei e multiplicai” e nossos administradores sacros teimam em não “multiplicar”; eu explicamos os perigos das riquezas, mas nossos administradores sacros são milionários; eu escrevemos um decálogo (um não dois, porque o primeiro quebraram); eu ditamos leis; eu me apresentamos para setenta e quatro de uma só vez (Ex. 24:10) e eles mudaram as leis... E por aí vai à mudança.
            Filho    : (penitente) – Bom, Pai, quanto a este negócio de “homem com homem” o Senhor temos grande parcela de culpa no cartório, pois sempre o Senhor colocamos a mulher em segundo plano, quando não criávamos impedimentos (Ex. 19:15), tanto que, quando eu andamos por lá eu não me achegamos a nenhuma mulher.
            Pai       : (ponderativo) – Tenho minhas dúvidas, mas deixa pra lá. Realmente, mulher é meio complicado! Não vê o caso do Paraíso?! Engraçou-se com a cobra e deu no que deu. E olhe que não foi por falta de aviso!
            Filho    : (corroborativo) – Perfeito, Pai! Quando eu andamos por lá falei muita coisa por parábolas e eu agora, estamos achando que ao invés de explicarmos, complicamos. E os nossos administradores sacros vivamente, aproveitaram as metáforas parabólicas e embananaram o resto.
            Pai       : (aliviado e conclusivo) – Filho, sabe que você estamos coberto de razão e quer saber que mais: Você não fomos a esta tal de Terra, nem você deixamos o Espírito por lá e esta tal de Parusia que os nossos administradores tanto falam... É história pra boi dormir e crente gastar dinheiro.
            Filho    : (frustrado) – Ô Pai, até que eu ia gostarmos! Eu aparecermos triunfantes, para que todos os povos me vissem e nos louvassem... Ia ser legal paca! E agora, que já tem a Internet, será facílimo...
            Pai       : (bocejando) – Filho, o sétimo dia ainda não acabou! E lembre-se que o sexto dia foi dose... Deixem-Me repousarmos!
Fim desta “cena”


            Em virtude da grande demanda pelo sagrado, principalmente levando-se em conta o incomensurável número de seitas evangélicas renovadas, os deuses andam por demais atarefados e solicitam que "antes sejamos breves que prolixos", pois o tempo urge e nada de lengalengas, portanto:
            Mestre, ensina-me, para que me livre... Do meu pai pinguço, pois não aguento mais trabalhar para prover aquele alambique de toda espécie de destilado e ainda ter de "honrá-lo".
                        Mestre, ensina-me, para que me livre... Da minha mãe "dadivosa", pois não aguento mais ser chamado de "o filho dela" e ainda ter de defender a imaculada honra materna.
                        Mestre, ensina-me, para que me livre... Do meu irmão gêmeo marginal, pois não aguento mais, por engano, levar cacete da polícia.
                        Mestre, ensina-me, para que me livre... Da minha irmã ninfomaníaca, pois não aguento mais ser chamado de "cunhado" por tudo quanto é vagabundo da favela circundante.
                        Mestre, ensina-me, para que me livre... do meu tio agregado, pois juntamente com meu pai pinguço, forma uma dupla afinadíssima para drenar meus parcos recursos.
                        Mestre, ensina-me, para que me livre... Da minha tia fiel de seita evangélica renovada, pois não mais aguento tanta ignorância e falsidade.
                        Mestre, ensina-me, para que me livre... Do meu avô garotão, pois não mais aguento passar tanta vergonha entre meus pares quando ridicularizam a "múmia conquistadora".
                        Mestre, ensina-me para que me livre... Da minha avó sacripanta, pois não aguento mais ouvir tanta "santidade" por não mais ser o que era quando se junta com a minha tia.
                        Mestre, ensina-me, para que me livre... Do político trampolineiro populista, pois não aguento produzir tanto para meu país e ver este ser dilapidado por negociatas.
                        Mestre, ensina-me, para que me livre... Do administrador do sagrado financista, pois não aguento mais assistir este cancro carcomer e minar os crédulos simplórios ignaros.
                        Mestre, ensina-me, para que me livre... Do gorila fardado, pois não mais aguento presenciar tanta truculência em nome de uma ordem e disciplina equivocadas.
                        Mestre, ensina-me, para que me livre... Do advogado de porta de cadeia, pois não aguento mais assistir a verdade ser manipulada para favorecer bandidos.
                        Mestre, ensina-me, para que me livre... Do juiz venal, pois não mais aguento ver a justiça ser distorcida impunemente.
            Mestre, ensina-me, para que me livre... De mim mesmo, para que possa "sem ser compreendido, compreender"; "sem ser perdoado, perdoar"; "sem ser amado, amar"; "sem ter recebido, dar"... ops! dá uma porra, ora! assim também é demais também.


            Reunido estava o concílio dos Deuses (Certo! Concordo que está errado, mas, quem disse foi Camões) há seis dias, e ainda não haviam chegado a um consenso. Não havia jeito que desse jeito!
            Eles tentaram por todos os meios (e bota meios nisso!) e não chegaram a solução de como resolver aqueles problemas impossíveis.
            – Realmente eu desisto! É mais fácil eu descriar, tudo que criei em apenas seis dias, e criar tudo novamente, que solucionar estes problemas. E olhem que sou Onipotente!
            – Concordo plenamente! Ameacei, castiguei, aterrorizei, botei até bomba em escola, mas, nada. Não há solução para estes problemas.
            – Indiscutivelmente vocês estão cobertos de razão. Iluminei-me, apaguei-me, iluminei-me novamente, renunciai a tudo e a todos, e nada! Acho melhor deixarmos como estar e marcarmos outro concílio para daqui a sete eternidades, e daqui pra lá... Quem sabe?
            Terminada a reunião, e marcada a outra, o secretário fez a leitura da ata para que todos assinassem. E ficou pendente:
            1º. fazer com que os Hebreus deixassem de fazer guerras;
            2 º fazer com que os Ianques assinassem o tratado da não poluição;
            3 º fazer com que os países latinos chegassem ao primeiro mundo;
            4 º fazer com que os políticos entendessem que a honestidade é a coisa mais importante que existe;
            5 º fazer com que as oposições se capacitem para governar;
            6 º fazer com que as esposas fiéis sejam fiéis;
            7 º fazer com que certas mulheres aprendam que é – Nada substitui o talento – e não, – Nádegas substitui o talento;
            8 º fazer com que os líderes religiosos permitam que o povo evolua;
            9 º fazer com que os seres racionais aprendam com os seres irracionais que somente há: Macho e Fêmea;
            10 º fazer com que certos autores deixem de escrever tanta besteira, para que certos leitores desocupados não fiquem ainda mais bestas e desocupados.


(Abre-se o pano com Deus andando de um lado para outro, irritado)

Deus (Irritado) Não é possível! Não é possível!
Diabo (Entrando e fazendo muitos salamaleques) Senhor meu, por que estais com o semblante tão perturbado? Por que percebo no divino rosto sinais de inquietação?
Deus (Com ares de desprezo) Ora! Ora! Não me venha com bajulações. Você sabe tanto quanto eu, do que estou falando.
Diabo (Submisso bem ao gosto dos religiosos) Mas, Senhor, nesta linda viração da tarde, humildemente venho visitar-Vos e sou recebido desta maneira! (snif...snif)
Deus (Meio arrependido) Tá! Tá! Desculpe. Mas quem foi quem foi o inventor dessas visitas todas as virações da tarde?
Diabo (Desconfiado) Mas... mas o quê?
Deus (Falando com seus botões) Não é justo! Não é justo!
Diabo (Colocando a mão atrás da orelha) Suprema voz, se Vos é conveniente, podeis falar um pouco mais alto para que, humildemente, eu escute Vosso divino ensinamento.
Deus (Mais calmo, sentando-se em seu trono, e mandando o Diabo sentar-se, no chão) Veja se é justo. Você sabe da trabalheira que eu tive para criar... e criar... e criar. Não sabe?
Diabo (Balançando exageradamente, a cabeça) Claro! Claro!
Deus (Conclusivo) Pois é criei tudo e criamos todos, mas...
Diabo (Interrompendo) Como, Altíssimo?! O Senhor disse: Criei tudo e criamos todos. Não entendi?
Deus (Tentando explicar) É. É. É o seguinte: Quando eu criei o tudo eu estava só, mas quando fui criar o todos eu já não estava só, pois existia outro eu que...
Diabo (Perplexo) Altíssimo?! Outro eu, isto é, outro o Senhor, igual ao Senhor, com os mesmos poderes!
Deus (Complacente) Mais ou menos assim, mas deixemos isso para lá. Esqueça. Esqueça.
Diabo (Interrogativo) Esquecer?! Esquecer?!
Deus (Irritado e autoritário) É. Esqueça e fim. Ponto final. Cé fini. (Voltando-se para a platéia e calmo) Se ele soubesse que existe um terceiro eu e que é uma Pomba. (Voltando-se, agora, tranquilo novamente, para o Diabo) Criei tudo e criei perfeito. Certo?
Diabo (Concorde)Claro que é certo! Tudo que o Altíssimo faz é perfeito.
Deus (Penitente) Mas quando fui criar o todos caí na besteira de chamar os outros.
Diabo (Curioso e gozador) E? E? E?
Deus (Complacente) E... Deu no que deu. Você sabe: Adão e Eva, que fracasso! Imaturos e imperfeitos.
Diabo (Cordato e crítico) É isso aí, bicho, isto é, Altíssimo. Reunião rima com... Confusão.
Deus (Justificando) Não exageremos, pois alguém andou se metendo lá pelo meio do meu Paraíso e...
Diabo (Escorregadio e safado) É... Né... Sei... Né... Sei.
Deus (Concordando) Eu sei que você sabe. Pensa que eu engoli aquela estória de serpente e maçã? Toda essa bagunça foi você quem começou, inventando de livre arbítrio, de conhecer o bem e o mal.
Diabo (Consternado) Perdoe-me, Suprema Misericórdia. (Postando as mãos) Perdoe-me.
Deus (Irritado e falando alto) Perdoar. Perdão. P-E-R-D-Ã-O. Tá aí o meu problema. Só queria saber quem inventou esta famigerada palavra e ainda por cima inventou que eu perdoaria setenta vezes sete. Ah! Se eu soubesse! (Breve pausa e silêncio)
Diabo (Olhando, para a platéia, fazendo caretas e batendo com o indicador no peito) Quem será que inventou o perdão? Quem?
Deus (Olhando atravessado, para o Diabo) Eu descubro. Ah! Se descubro!
Diabo (Apontando para a platéia com gestos largos) Senhor, abrandai a Vossa ira. São todos Vossos filhos (apontando para si mesmo) e não sabemos o que fazemos. Perdoe-os. Perdão para essas pobres almas.
Deus (Confirmativo) Falou muito bem. Eles, somente eles são meus filhos. Você é quem inventou esta história de anjo de luz... E que morava aqui no Céu... e que era muito inteligente... E queria saber mais do que Eu... E patati e patatá. Deixa estar. Teu café está se coando!
Diabo (Humilde e bajulador a estilo dos religiosos) Altíssimo! Alma Suprema! Magnânimo! Perdoe-me.
Deus (Irritado) Esse tal de perdão só me trouxe encrenca. Nunca mais pude aplicar um castigo. Veja bem: Coloquei no Céu todo o que existe de melhor: Palácios de Safiras, Fontes que emanam leite e mel, Moradas celestiais, Querubins, Serafins, Anjos, o scambau, sacou. O SCAMBAU! E no Inferno? O que há de bom? Nada. Nadica!
Diabo (Levantando-se para explicar) Realmente no meu Inferno não...
Deus (Interrompendo, irritadíssimo) No seu o quê?! Você tem nada. No meu Inferno. Você esqueceu que fui Eu que criei tudo. TUDO entendeu!
Diabo (Conformado) Certo. No seu Inferno, isto é, no meu Inferno, digo, no seu... Meu, sei lá. No Inferno eu nada coloquei. Tava pela aí, sem terra e sem teto e fui ficando... Ficando e tô por lá, e...
Deus (Interrompendo e complacente) Certo. Não vamos brigar por isso. Vejamos: no Céu tudo de bom e no Inferno tudo de mau. Concorda?
Diabo (Taxativo e obediente) Claro que concordo, Supremo poder! Claro que concordo. (Virando-se para a platéia) Sou bem besta pra discordar! Meu nome é Lucifer e não... Mané.
Deus (Esclarecedor) É aí onde reside o meu problema.
Diabo (Curioso) Por que, Sereníssima Supremacia?
Deus (Explicativo) Coloquei tudo de ruim no Inferno e tudo de bom no Céu, porém o Inferno está cheio.
Diabo (Concordando e conclusivo) E não é que é, mesmo. Tudo o que é corrupto tá comigo. Reis, Presidentes, Ditadores, Tiranos, Desembargadores, Ministros, Senadores, Deputados, Prefeitos, Professores, Vereadores. Foi corrupto está comigo. Sem falar nos administradores do sagrado e nas otoridades puliciau!
Deus (Taxativo) Entendeu, agora?
Diabo (Concorde) Claro! Claro! Claríssimo!
Deus (Continuando)E há mais. Se eu contar com Traficantes, Líderes religiosos, Políticos profissionais, e outros maracutaieiros. Aí é que a Jurupoca pia. E há um detalhe: Tudo gente fina... Tudo da alta, tudo emergente, sacou?
Diabo (Concorde e safado) Se saquei? Como saquei! E mulher gostosa. Cada uma peitante e abundante!
Deus (Calmo e abrindo os braços) E o que vem para a minha mansão celestial? Só coisa ruim. Sofredores, Perseguidos, Miseráveis, Arrependidos... Tudo quanto não presta!
Diabo (Consternado) Realmente. E se levar em conta os selecionados nas Bem-aventuranças, e os que começam com a letra P, tá ruim!
Deus (Curioso) Como? Letra P?
Diabo (Explicando) P de Professor, Político, Prelado, Padre, Pastor, Preboste, Prefeito, Presidente, Panificador, Pedreiro e outros mais, (menos é claro Prostituta), teve P não presta. Entendeu amigo?
Deus (Tresloucado) Amigo de quem??! Eu nunca fui teu amigo. Vê se te manca, Cara. Amigo!! Era só o que me faltava.
Diabo (Submisso e apavorado feito crente) Perdoe-me, Clemente e Misericordioso. (Ajoelhando-se) Perdoe-me não sei o que digo.
Deus (Calmo e complacente) Lá vem esta história de Perdão. A gente não pode dar nem um castiguinho que seja. Quando o cabra merece uma cipoada... Lá vem o ... Me perdoe.
Diabo (Recompondo-se e ficando de pé) E o Rei dos Reis ainda não falou nos... Pobres.
Deus (Totalmente transtornado) POBRE. Não me fale nessa DESGRAÇA!
Diabo (Saltando apavorado) Acalme-se, Sereníssimo. Quequéisso, Menino! Proteja-me meu querido São Benedito!
Deus (Acalmando-se) Meu filho, eu não queria dizer o que disse.
Diabo (Mais calmo e aproximando-se) Eu sei. Eu sei. Mas... Vossa ira se acende muito facilmente.
Deus (Tranquilo) É, meu filho, é este famigerado Perdão que me tira do sério. Depois que inventaram esta coisa, eu nunca mais pude castigar os errados. Todos foram igualados por este tal de perdão!
Diabo (Concorde) E eu não sabemos!
Deus (Confuso) Ficou uma salada dos seiscentos... Seiscentos...
Diabo (Interrompendo e conclusivo) Diabos! Diga logo, home! Eu entendo! Eu entendo!
Deus (Consolado e humilde) Sei que só você é o único que me entende, e entende muito bem. Somos os lados de uma mesma moeda. Somos necessários... Um ao outro
Diabo (Oportunista como os políticos) Claro! Claro! Até penso fazer como o Dimas, lá no calvário: Para não receber a condenação final... Me arrepender e ... Pedir perdão. Você me perdoa?
Deus (Tresloucado e aos brados) O quê? O quê? Quem você pensa que eu sou seu... Seu...
Diabo (Apavorado e pulando) Valha-me... Valha-me... Quem, se o Home tá cá gota serena. Agora eu me lasquei de vez. Quem vai me valer nesta hora de aflição? Quem?!
Deus (Misericordioso e calmo) Não foi isto que eu queria dizer. (Abraçando o Diabo com humildade) – Meu filho, me PERDOA.


            Vivera toda a sua vida sentindo medo e olhe que era um homem temente a seu Deus.
            Sabia que existiam outros deuses, mas somente o seu era o Único e Verdadeiro.
            O seu Deus não admitia que ele tivesse nenhum outro deus diante dEle, pois se assim o fizesse seria castigado e os seus descendentes também o seriam, até a quinta geração, por isso O temia.
            Entretanto não era misólogo e soubera por amigos, de uma civilização onde não existia o Medo.
            Curioso, resolveu dar um pulinho por lá, para saber da verdade e juntando mala e cuia, partiu.
            Lá chegado, logo no aeroporto, se aproximou dele uma jovem que se apresentou como seu guia.
            Notou que o idioma era o mesmo e procurou pela repartição que lhe daria o visto de permanência (poderia demorar-se... quem sabe?).
            – Al o quê?
            – Alfândega! Repartição que controla a permanência de estrangeiros
            – Não sei do que você está falando, mas vou levá-lo ao hotel, acompanhe-me.
            Deparou-se com um conjunto de pequenos chalés e foi levado pelo guia, até um deles.
            – Enquanto você permanecer entre nós esta será sua residência.
            – Primeiro, quero saber de preços, condições e ...
            – Continuo a não entender o que você fala, mas já está hospedado, o que mais quer?!
            – Quero que me fale sobre o Medo.
            – Me o quê?
            – Medo! Sentimento de insegurança ante a noção de perigo real ou imaginário ou...
            – Mais uma vez desconheço qualquer uma dessas palavras ou seus significados.
            Percebendo que o guia denotava desconhecimento total sobre o assunto (tipo político acerca de Moral e Ética).
            – Poderia me conseguir um dicionário para tirar-me algumas dúvidas?
            – Du o quê?!
            – Dúvida! Incerteza sobre determinada realidade ou...
            – Desconheço tudo isso, entretanto vou apanhar o dicionário.
            Ajudado por ela, descobriu que no dicionário local não existia nenhum verbete que sugerisse a idéia de medo.
            Fob(o), ou Mis(o), ou Metus, us ... Nada.
            Apelou para algum derivado tipo Fobofobia, Misógina, Acrofobia, Teofobia... Nada.
            – Por que esta sua preocupação em saber da existência do vocábulo Medo, totalmente desconhecido para nós, perguntou o guia com certa cautela.
            – É porque venho de uma civilização onde Medo, é a palavra que normatiza tudo, respondeu.
            – Amigo, infelizmente não entendo do que você está falando e creio que nunca vou entender. Digo-lhe mais: nem eu nem qualquer um de nós. Realmente não lhe posso ajudar e espero que você estenda.
            – Claro que entendo, isto é, claro que não entendo o por quê de vocês não entenderem o que é o Medo, Moça!
            – Como guia, posso lhe mostrar todos os prazeres de nossa civilização; posso ainda lhe explicar os nossos deveres e direitos, mas este tal de Medo, infelizmente, necas de pitibiribas.
            – Você pode me encaminhar a um sábio?
            – Sa o quê?!
            – Sábio! Aquele que sabe de mais coisa que as pessoas comuns e...
            – Pessoas comuns?! Infelizmente, também não sei o que é isso, me desculpe, mas...
            – Pessoas comuns... Pessoas com poucas possibilidades de ascensão na escala social.
            – Escala social?! Perdão, mas não sei do que você está falando. Não sei mesmo!
            – Bom, para que não fiquemos nestes desentendimentos eternos, (feito administradores do sagrado) existe algum lugar ou alguém que possa nos tirar desse impasse?
            – Que eu saiba, não. Mas o que é impasse?
            – Impasse? Impasse é quando a situação não apresenta uma saída favorável.
            – Você é que deve estar em um impasse, pois não percebo nada que nos conduza a uma situação insuperável e, é meu dever lhe mostrar a minha civilização. Por onde você quer começar?
            – Por um bom restaurante, pois estou com uma fome de excluído social.
            – Fome de quê?! Não entendi e...
            – Deixa pra lá! Vamos ao restaurante.
            Satisfeitos, o guia falou.
            – Estou apta para lhe mostrar minha civilização, e além do mais, percebo que deseja saber a origem de desconhecermos o Medo, palavra que, segundo você, normatiza a sua civilização. Por onde deseja começar: Direito, dever ou prazeres?
            – Vou seguir sua ordem: Direito.
            – Pois não, pergunte!
            – Quais os direitos que vocês têm?
            – Direitos não, direito! Temos o direito de viver.
            – Viver como?
            – Como, viver como?! Há maneiras de viver? Para nós somente há uma maneira de viver.
            – Puxa! E qual é?!
            – Viver! Apenas viver. Outra forma é morrer. Ou se vive ou não se vive! Por quê?
            – Porque na minha civilização há vários modos de vivermos. Uns bem, outros mal, outros vegetam, e ...
            – Não estou entendendo nada do que você está falando. Desculpe-me, mas acho que você está falando em Português.
            – Português?! Por que Português?!
            – Porque em nossa civilização quando não entendemos nadica de pitibiribas de nada dizemos: Você está falando em Português!
            – Já na minha é: Você está falando em Javanês!
            – É! Questães de civilizaçães. (sorriu, ... lindo!).
            Percebendo que a resposta dada era perfeita.
            – E o dever? Acertei?
            – Na mosca! Em nossa civilização temos o dever de deixar o outro viver. Na sua existe outros?
            – Deveria não existir, mas infelizmente existe, entretanto você não os iria entender, deixa pra lá.
            Como a noite já se aproximava, acertaram que iriam descansar e lá pelas nove se encontrariam no hotel e sairiam para conhecer os prazeres.
            Hora aprazada, saíram pela aí, e ele pode perceber que seu guia era uma tremenda gataça: Um metro e setenta de morena, com tudo em cima. Cabelos soltos e esvoaçantes. Rosto discretamente maquiado. Corpo escultural, dentro de um tubinho de tecido leve, com alças, e um decote generoso por onde notou a ausência (por desnecessário) de qualquer lingerie. Sandálias com meia altura. Perfume. Perfume não, ... ferormônio.
            – Reservei lugares na Opera Municipal. Está em cartaz O Pequeno Príncipe, certo?
            – Conheço o livro, mas a opera... Vamos que vamos!
            Terminado o espetáculo.
            – Gostou?
            – É! Achei estranha a ausência de personagens que impingia certo temor tipo o rei que gostava de condenar e depois perdoar, impingir temor...
            – Condenar... Perdoar... Temor... Não entendo! Nenhumas dessas palavras fazem algum sentido para nós.
            – Condenar. Proferir sentença condenatória contra alguém ou algo.
            – Não entendo!
            – Perdoar! Conceder remissão a alguém.
            – Não faz sentido em nossa civilização!
            – Temor. Ato ou efeito de ter medo.
            – Novamente a palavra... Medo. Que civilização estranha a sua!
            A curiosidade o moveu a mais uma pergunta.
            – Logicamente não sabem da violência, sabem?
            – Claro que sabemos! Violência! Qualquer forma de constrangimento físico ou moral.
            – Finalmente!
            – Claro que finalmente! Pois finalmente, abolimos qualquer forma dessa prática nefasta, porém, a abolimos nos primórdios da nossa civilização, ainda em nossa pré-história, e em tempos imemoriais. E lhe digo mais: Há um livro que demonstra exatamente, como esta prática estúpida poderia perdurar e baseados nele fizeram as devidas correções. Este livro...
            – Claro! A Bíblia.
            – Bi o quê?!
            – Digo, o Corão.
            – Co o quê?!
            – Seriam os Vedas?
            – Ve o quê?!
            – Não conheço nenhum desses, pois falo do Admirável Mundo Novo, conhece?
            – Claro que conheço! Somente não havia percebido que ele poderia ter tal efeito sobre a civilização de vocês.
            – Pois é! Corrigimos os possíveis erros e não mais os repetimos.
            – E a civilização de vocês não repete erros?
            – Credo! E erro é pra ser repetido?!
            – Deixa pra lá. Pra onde vamos agora?
            – Para um parque de diversão, é claro, deseja sugerir outro lugar?
            – Não, não! Vamos que vamos.
            O que o guia havia chamado de parque de diversões era um imenso espaço onde existia de tudo o que proporcionasse lazer: Brinquedos, montanhas-russas, parques aquáticos, pistas de danças, artistas mambembes, circos, o scambau! E o importante: gratuito e sem cercas.
            Havia notado que até agora, não havia portaria nem porteiro e agora no Parque, idem.
            – Menina, me diga uma coisa: porque vocês não têm alfândega, nem portarias, nem porteiros e...
            – Desculpe-me, outra vez, mas não estou entendo absolutamente nada! Desconheço todos estes conceitos.
            – Menina, como vocês conseguem manter tudo isso em perfeito funcionamento sem existir nenhum encarregado de fiscalizar...
            – Fis o quê?!
            – Fiscalizar... Velar por... Vigiar, ...
            – Lá vem você novamente, falando Português!
            – Quer dizer que vocês não têm autoridades ou...
            – Au o quê?!
            – Autoridade! Pessoa que faça com que a Lei e a Ordem sejam cumpridas.
            – Se existe Lei e Ordem pra que alguém para fazê-las cumprirem-se?! Acho um desperdício e um contra-senso. A Lei e a Ordem são coisas inerentes aos seres e logicamente, não pode existir algum ser que deixe de cumpri-las, ora!
            – Certo, certo! É que na minha civilização elas também existem, mas se não existir alguém para fazer com que sejam cumpridas, ninguém as cumpri e predomina a desordem e ...
            – Des o quê?
            – Desordem! O contrário de Ordem.
            – E existe o antônimo de Ordem?! Credo!
            Distraíram-se até não querer mais e lá para as tantas, satisfeitos e felizes.
            – Como é, está gostando? Quer ir para o hotel ou tem outra coisa em mente?
            – Bom na minha civilização, depois de uma noitada como esta e acompanhado de um gataça como você o que nós fazemos é ... É...
            – É o quê? Fale, homem! Gostei da gataça. Fale!
            – Dormir... Fazendo amor.
            – Dormir fazendo amor? Credo! E se faz amor? E além do mais... Dormindo?! Por aqui nós vamos primeiro, fazer sexo e depois... Dormir.
            – Bom, falei por eufemismo e ...
            – Eu o quê?!
            – Eufemismo. Abrandamento de uma expressão rija, forte, dura.
            – E fazer sexo é expressão dura?! Credo! Que civilização estranha a sua: Querer fazer uma coisa e convidar para outra?! Como é que vocês se entendem?
            – Certo, quero fazer sexo.
            – Agora está melhor. Porém, não use este tal de eufemismo na hora do vamos ver, certo? Se houver abrandamento... Babau.
            Na manhã seguinte, após banhos, desjejuns, e ambos prontos, na sala de estar do hotel.
            – Hoje quero conhecer seus monumentos históricos, lugares pitorescos, igrejas e...
            – Momento, por favor. Sei o que é monumento histórico, sei o que é lugar pitoresco, mas... Igre o quê?
            – Catedrais, Basílicas, Mesquitas, Igrejas, Templos, Capelas, Oradas: lugares de adoração às divindades!
            – Agora complicou de vez! Não entendi nenhuma dessas palavras, ou melhor, nunca as ouvi. Poderia me explicar, pois estou me sentindo uma ignorantaça.
            – Realmente, agora, estou muito confuso, pois não entendo como em sua civilização não existem lugares para adorar seus deuses.
            – Deu o quê?
            – Deuses! Seres infinitamente superiores que habitam os céus!
            – Habitam onde?
            – Nos céus! Céus, lugares destinados a moradas desses seres infinitamente superiores, onipresentes, oniscientes e onipotentes.
            – Deuses?! Meu Amigo, você está falando em Português, ou como quer sua civilização, em Javanês e muitos outros ês. Confesso que já havia ouvido falar em outras civilizações, mas nunca poderia imaginar que fossem tão diferentes e que usassem tantos conceitos totalmente abstratos, estrambóticos e estapafúrdios, credo. Deuses?!
            – Realmente, somos diferentes, pra burro!
            – E bota diferente nisso! Primeiro você vem me falar em medo... Não entendi. Depois pergunta se não temos encarregados ou autoridades que façam cumprir a Lei e a Ordem... Não entendi. Posteriormente queria que fizéssemos sexo, por sinal excelente, e me convida para dormir fazendo amor, alegando tal de eufemismo... Não entendi. E para fechar com chave de ouro: essa história de igrejas, e céus e deuses. Confesso que é muita areia para meu caminhãozinho.
            – Pois agora, estou entendendo porque na civilização de vocês não existe Medo. Quero que você me conduza de volta a minha civilização. Além do mais quero que você esqueça a minha nefasta presença aqui para que não se contaminem com o Medo, doença incurável que destrói a tudo e a todos.
            – Amigo, poderia me explicar o que é o Medo, agora estou curiosa?
            – O Medo, como já disse, é uma doença incurável e é o pai de todas as dúvidas dos seres humanos. Ele sempre aparece trazido pela Ignorância.
            – Da Ignorância já ouvi falar, pois sei que era uma terrível doença e foi erradicada de nosso meio, através da Educação, única vacina eficiente. Mas o que não sei é como ocorre o contágio.
            – Se não sabe o que causa está terrível doença, é porque vocês somente convivem com a Verdade e não com a Mentira...
            – Men o quê?!
            – Deixa pra lá, Menina!
            – Mas você disse que sabe por que nós não sabemos o que é o Medo. Diga-me.
            – Deixa pra lá, Menina!
            – Mas agora fiquei com dúvidas e quero saber.
            – Deixa pra lá, Menina!
            Já de volta a sua civilização, meditava: Sem deuses e sem medo, ou melhor, não há medo porque não há deuses.
            Começou a sentir-se culpado em deixar naquela civilização, (quem sabe, pela dúvida que agora se incubava no guia) o vírus que poderia destruí-la, pois havia falado na palavra-ônibus que é a causa de todas as dúvidas e de todos os medos... Deuses.


sábado, 1 de outubro de 2016

Acorde

– como, bebo e durmo bem
Faço o bem. Sem ver a quem!
– como, bebo e durmo mal
Faço o mal. Muito normal!
– não como, bebo e durmo mal
Faço o mal. É mais normal!
– coma, beba, durma mal:
Faça o bem! Nem vem, não tem!
– coma, beba e durma bem:

Faça o mal.
 Fe-no-me-nal!

A Propósito do Pós-Modernismo Medieval

            Escrevi, logo após o "surgimento" das "dançinhas baianas" (garrafa, vassoura), levando em conta o "Ridendo mores castigat" do Santeul, A Propósito do Bundismo  qual inseri O “Manifesto do Bundismo”, Bundismo Moderno e A Caga-Lume.
            Um pouco mais tarde, ainda dentro do espírito do Santeul, postei o "Pós-Modernismo Medieval" em esta Usina de Letras, que havia escrito nos idos 99 do século passado, e depois por mim retirado por motivos pessoais. Eis o texto integral:


Estilos vão e vêm.
Maneiras vão e vêm, mas a Humanidade é sempre a mesma!
A tecnologia muda, avança, faz novas descobertas, se atualiza, mas a Humanidade é sempre a mesma.
De Lucy e Abel até hoje o que fizemos? Macaqueá-los.
Necessário se faz que, a exemplo de Idade Média, ou Barroco, ou Modernismo, rotulemos o iniciar do Terceiro Milênio, e nada mais cabível e perfeito que: Pós-Modernismo Medieval.
            – Quais suas características mais importantes, perguntará o exasperante e vampirizante. crítico.
            – Todas as anteriores somadas a nenhuma das anteriores, racionalmente respondo.
– Por que Pós-? Logicamente porque indica depois de alguma coisa, claro!
– Por que Modernismo? Porque está acontecendo agora, ora! Temos tecnologia de ponta em todos os setores da tecnologia. Foi técnico, evoluiu.
– Por que Medieval? Porque estamos convivendo com os ingredientes básicos que fizeram com que aquela nefasta Idade Média, ou das Trevas, ou Negra existisse, isto é: Fome, Miséria e Ignorância e sua decorrência lógica: a Religião. (hodiernamente a chamo Administração do Sagrado).
Suas características mais marcantes são:
1)         Gayísmo – Volta des*undada aos padrões sócio-safadológicos da Antiguidade Clássica greco-romana, e divide-se em:
a)         Bigfootismo – (arcaico Sapatonismo) tem por característica o estar por cima feminino e a aversão a tudo que a serpente paradisíaca representa;
b)         Monaísmo – (arcaico Bichismo) tem por característica o estar de quatro masculino e a veneração a tudo que a serpente paradisíaca representa.
4)         Trambiquismo – Ênfase a tudo que é desonesto, que é ilegal, que é antiético e divide-se em:
5)         Propinismo – (arcáico Subornismo) tem por característica tornar ético e legal todo tipo de propina, desde o simples toco automotivo até as contas numeradas em paraísos fiscais;
6)         Palanquismo – (arcaico Politiquismo) tem por característica básica a reunião de aproveitadores, que mentem e mentem e mentem e mentem e mentem e mentem e mentem
7)         Anti-sacratismo – Volta aos padrões religo-torturantes da Idade das Trevas e divide-se em:
8)         Ignorantismo – (arcaico Obscurantismo) tem por característica primordial manter os ignorantes cada vez mais ignaros para que possam ser manipulados totalmente;
9)         Espolianismo – (arcaico Absolvicionismo) tem por característica, quer pela indulgência voluntária, quer pelo dízimo obrigatório, manter o desafortunado com esperanças de, no pós-morte, ir para o seio dos inumeráveis únicos e verdadeiros deuses;
10)       Excluídismo – (arcaico Carentismo) tem por característica primordial, manter o gênero humano em condições subumanas, para poder mais e mais espoliá-lo.
11)       Emergentismo – Retorno a todos os padrões de todas as Épocas e de todos os Estilos, e se divide em:
12)       Teste de Paternidadismo – (arcáico Ele me Seduziuísmo) tem por característica dopar um famoso, quer por embriaguez alcoólica, quer por qualquer outra droga não social, embarrigar dele e posteriormente, através da comprovação pelo DNA, obrigá-lo a assumir o erro (rebento), com a finalidade de subir na vida facilmente;
13)       Bundismo – (arcaico Menina Prendadismo) tem por característica ajeitar a região glútea para, usando-a sabiamente, subir na vida de costas.
Adentro ao Bundismo. Se agitada delicadamente, é Gretchenismo; se violentamente Karlaperismo.
            Como vimos, todas as características acima especificadas, se enquadram maravilhosamente bem no mundo atual, portanto eis mais um Estilo de Época; Pós-Modernismo Medieval.
            Constantemente vejo debates pelo "Modernidade" da TVS (www.redestv.com.br) versarem sobre o atual "Estilo de Época" que muito se assemelham ao meu Pós-Modernismo Medieval.
            Sem querer ser "sábio aos próprios olhos" ou pretensioso percebo que não tocam no "coração" do problema que é a Ignorância, ou melhor dizendo, não tocavam, pois em um dos últimos "Modernidade" abordaram de leve, a importância da religião na sociedade moderna, quando debateram sobre "Choques de Civilizações".
            No meu "Pós-Modernismo Medieval" justifico o medievalismo atual com:
            – Por que Medieval? Porque estamos convivendo com os ingredientes básicos que fizeram com que aquela nefasta Idade Média, ou das Trevas, ou Negra existisse, isto é: Fome, Miséria e Ignorância e sua decorrência lógica: a Religião. (hodiernamente a chamo Administração do Sagrado).
            Retirei de esta Usina de Letras vários textos (muita agressão gratuita infundada por parte de assinantes desavisados) e postei em “sites controlados onde procuro chamar a atenção para o Neo-evangelismo neste tempo de Neoliberalismo, Neopentecostalismo, Neofundamentalismo, e outros "Neos-".
            Tenho notado a volta medieval dos "medos", e principalmente o**Medo do outro**. Medo este, que é fundamentado no "Assim diz o Senhor: Maldito o varão que confia no homem, e faz da carne o seu braço, e aparta o seu coração do Senhor!", de Jeremias, popularizado "judeumente" para "Maldito o homem que noutro confia" ou no "Eis que Deus Yahweh não confia nos seus servos, e até a seus anjos atribui loucura"; de Jô, ou ainda do mesmo Jô – "Eis que Deus Yahweh não confia nos seus santos, e nem o céu é puro aos seus olhos".
            O "outro" é aquele que está do "lado de lá" e para que se perca o medo deste "outro" ele deverá ser "convertido" e vir para o "lado de cá" e se ele não vier, continuando infiel ou descrente, dar-se-á um "jeito de neutralizá-lo" fazendo que se "submeta" ou que se cale. (de preferência para sempre).
            Os dois bilhões de desempregados do planeta, excluídos do axioma do capitalismo neoliberal "sou o que faço", não têm a menor segurança no "amanhã", nem para eles e nem para seus descendentes, entretanto as "religiões" os mandam "frutificai e enchei a terra".
            Quando o Sharon "passeou" pela Mesquita acendeu o estopim e creio que estamos marchando em passo acelerado, para sermos "soldados" de uma nova "cruzada" entre deuses (Alá x Javé/Jesus) e acho, infelizmente, que ela se faz necessária, pois estaremos em 2010 com oito bilhões de "homo sapiens" os quais certamente voltarão a ser primitivos primatas canibais, se não mantivermos os ideais quatro bilhões de humanos que o planeta suporta.

            A História se repete e estamos presenciando o aumento da violência como meio de ascensão social para os "excluídos sem amanhã" e para os que rejeitam ser a principal matéria prima dos sempiternos "Administradores do Sagrado", que usam e abusam do "quanto melhor pior" para seus propósitos não tão sagrados como apregoam, portanto estamos em pleno Pós-Modernismo Medieval.